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SENTIMENTOS CONFISCADOS

A crônica, este gênero do presente, é tão flexível que pode beirar o ensaio, o conto, a piada, a poesia ou o simples registro.  E é nessa dança que a crônica torna-se cheia de possibilidades, sempre sedutora e com cada vez mais adeptos. O presente volume reúne crônicas e aforismos de uma das mais prolíficas escritoras catarinenses, alguém que aprendi a respeitar pelo trabalho de editora e agitadora cultural, mas sobretudo pelo poder da palavra. Com este “Sentimentos Confiscados” ela prova ser uma das cronistas e aforistas mais afiadas do país, e com uma versatilidade impressionante aborda assuntos tão díspares como desejo e redenção, e mostra como a delicadeza e a sutileza são o verdadeiro tempero da crônica brasileira. Os textos ora se contrapõem ora se sobrepõem numa dualidade incrível (são sempre dois textos em um) e que cortam de maneira diferente. E esta faca de dois gumes vai deixar marcas indeléveis nos leitores, pois a verdadeira literatura sempre confisca.

Carlos Henrique Schroeder, escritor, editor (Design Editora e Editora da Casa)

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Sentimentos confiscados

 

Todo escritor vai percebendo, ao longo da sua carreira literária, a cada novo livro, detalhes que antes não considerara atentamente na estruturação física da obra. Começo a minha primeira resenha do ano, admirando-me perante a singeleza e expressividade que uma capa é capaz de imprimir à um desabafo escrito. Tal qual o príncipe que abandonou tudo para contemplar a própria alma refletida na pequena piscina de um oásis, retratado no filme “Bab’Aziz”, do diretor tunisiano Nacer Khemir, a moça da capa parece efetivamente enxergar na clareza e transparência do mar um vídeo-tape da própria vida.

E é isso o que Jacqueline Aisenman faz magistralmente em seu décimo livro, “Sentimentos confiscados”, que tem por um lado, a despreocupação de um diário adolescente e por outro a autenticidade histórica do experimentalismo poético. A obra vem a ser um apanhado de textos curtos e minicontos sem quase nenhuma ligação entre si, aleatoriamente ordenados, casualmente aproximados, deliciosamente misturados. Esse formato tão peculiar, convida os navegantes à uma degustação pausada, despreocupada e sem maiores compromissos com prazos de entrega. Tal liberdade de estilo, própria de uma autora vacinada contra toda espécie de convencionalismos intelectuais, sopra-nos uma suave brisa, que transporta as nossas atenções para o que realmente importa: Entender as raízes dos nossos sentimentos. (Mesmo que isso seja praticamente impossível)

A intuição feminina à flor da pele dessa catarinense de Laguna, lapidada pelo divino dom da maternidade, confere-lhe uma autoridade ímpar nas coisas da vida, presenteando o leitor com impressões pessoais algumas vezes provocantes. Somos amorosamente estimulados, a cada texto, à revermos as nossas próprias verdades intocáveis, que permanecem preguiçosamente repousadas naquele compartimento interno chamado entendimento. Jacqueline, sem a pretensão de impor dogmas existenciais, convida-nos à uma pausa na insana correria do dia-dia, através de pequenas histórias e reflexões intimistas, mas de fácil assimilação. É esse, segundo penso, o principal compromisso que devem assumir os apologistas da democratização da escrita, simplificando toda excessiva frescura que afaste novos leitores.

No livro, em doses condensadas, encontramos crônica, romance, comédia e drama, numa insofismável demonstração das múltiplas ramificações criativas da escritora, que parece de fato não se importar em fazer parte exclusiva desse ou daquele gênero literário. São os seus sentimentos, e nada mais, quem ditam-lhes a próxima trilha a seguir e a maneira de se expressar perante as próximas páginas ainda em branco. De Jacqueline, com efeito, podemos esperar com grata expectativa, o inesperado.

Tomo a liberdade de colocar “Sentimentos confiscados” na categoria das obras destinadas a serem lidas e relidas. Chegamos à última página com a sensação de termos mergulhado fundo nas recordações pessoais de uma amiga, passando a admirá-la e conhecê-la melhor. Intimidade, transmitida com tamanha fluidez, poucos conseguem fazê-lo. É coração na ponta da caneta.

Cesar Soares Farias, escritor

 

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