Contos e crônicas

Escrever é uma maneira de falar sem ser interrompido.
Jules Renard
Nesta seção você encontrará minhas crônicas e contos.
Não espere uma “divisão” entre os gêneros. A linha tênue que sempre existe entre eles, aqui é ainda mais frágil: costumo brincar, misturar, fazer experiências. E, como na poesia, também não faço rascunhos. É meu jeito de expressão, escrita simples e emocional.

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BACURAU NA GENTE!

Finalmente aconteceu Bacurau na minha vida. Forte, pleno e rico. Pois é, tem coisas que só a arte pode fazer por nós. Porque muitas vezes não vemos direito, não entendemos direito, as coisas se embrulham, a gente tem aquela certeza da certeza que seria uma verdade.

Assisti Bacurau, precavida. É violento! É diferente! É… Lindo, Bacurau é lindo! Bacurau não é só um filme, é uma cura instantânea de desintoxicação para a mente plena de preconceitos subconscientes, uma dose forte de remédio contra a apatia de consciência e, acima de tudo, um bálsamo para a sofrida alma brasileira onde quer que ela esteja.

Em palavras mudas, gritos silenciados, o Nordeste que o Sul não vê e não quer saber. As alegorias (“Por que tão velho, tão nu?) que reverenciam a sabedoria da idade, a naturalidade de um povo. (Quer dormir comigo hoje? Tu não estás de luto? Não sou religiosa!). As dualidades da idade, do ser mulher, não ser, ser homem, não ser, de existir.

O Museu (o sangue, a história, o sangue, a memória, o sangue…). A Escola (livros no chão, crianças no chão, a vida no chão). A Igreja de portas fechadas (Eu queria ir na Igreja, mas a porta está fechada). Mas as portas da Igreja nunca fecham… A horta, a humildade, as balas voando, a felicidade, o enterro, os caixões vazios…

Há política e o político vem. Mas não é a política que não presta, é o ser humano, o “político” que se apropria do social e se vende por poder. Há a diversão, a festa, a dor, o sonho, a esperança… Há a luta.

Bacurau não se deixa morrer (É tarja preta. Inibe o humor. O Brasil inteiro está tomando. Eu não aconselho. Lixo).

Bacurau resiste. Resiste aos maus políticos, aos homens maus, às más intenções. Bacurau é resistência. Arte é resistência.

Acabei de assistir, e senti imediatamente o resultado profundo. Senti raiva do Brasil senti amor pelo Nordeste que não parece fazer parte desse mesmo Brasil, tão racista e arrogante.

E agora, enquanto escrevo, depois do massacre de Paraisópolis, das professoras apanhando nas ruas no Rio Grande do Sul, do senhor espancado até a morte em Santa Catarina, dos procuradores injustos do Paraná, sinto um choque de realidade que me faz ver que o genocídio que eu pensei que pudesse acontecer, já está acontecendo.

O Brasil está sendo vendido em peças separadas. O povo pobre, preto, sendo morto aos montes. Parte do povo assiste e aplaude. Há aquela parte Bacurau, que esbraveja, empurra, grita a verdade. Mas a grande, grande parte do povo, está ainda sob tarja preta.

Bacurau, finalmente, permaneceu no mapa. Mas o Brasil que conhecemos pode, a qualquer instante, desaparecer dele. Porque está ou anestesiado, ou doente de ódio.

Acorda, Brasil!

Voa, Bacurau! E se for, vá na paz!

Arte de Sarah Biegler (encontrei no Google, espero que a artista não se incomode com este empréstimo)

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DA VIOLÊNCIA DA PAIXÃO

Meu pensamento capturou de ti a imagem. Meu coração, apenas a essência. Agora, preso que estás dentro de mim, me diga: para que liberdade se a paixão acorrenta e amordaça e ainda assim o corpo não pede outra coisa…?
Meu corpo tem o teu corpo nesta tortura infinita de gestos e palavras que inflamam e provocam reações inesperadas.
Não há alma na paixão; se houvesse ela poderia voar para outros cantos e entoar outros cantos que não fossem as intensas melodias do corpo.
Só há corpo na paixão que amanhece alguns sentidos e anoitece outros.
A paixão que é fúria e com frenesi desperta o sonho e o calor do corpo antes adormecido pelo amor, dormente da rotina.
Desta prisão em que te encontras, celas abertas e sem algemas, me diga: queres partir?

Photo by Sweet Ice Cream Photography on Unsplash

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A LUZ

Fez-se luz. E então percebeu-se pela primeira vez a existência da escuridão. Povoada e plena. Viva e diferente. Em sua exuberância a luz mostrou a imensidade da escuridão.

Trouxe com ela cores desconhecidas e espantos. Arrancou o manto das terras todas, desabrigou os corpos. Deu vida às sombras, chamou pelo nome uma por uma das criaturas.

Revelou segredos, rachou esperanças, quebrou os paradigmas. Acabou com as desculpas, desinteressou o silêncio e o ócio, acordou as vozes e os olhares. Tropeçou nos medos, escancarou agonias, penetrou o mais profundamente que pode as entranhas dos longínquos recônditos.

Abriu o ventre dos sonhos mortos e desencobriu alegrias dormentes. Baniu as recordações geradas por dores acumuladas. Libertou asas e pés atristados pela imobilidade. Desatou os nós dos braços e mãos deixando abraços surgirem repentinos.

Iluminadas, as águas refletiam os céus. O balançar fazia dançar as estrelas que agora luziam. Curiosa, veio a lua espiar… Gostou do falario animado, pendurou-se entre umas poucas nuvens e lá permaneceu.

A claridade, suprema, escondeu chaves, abriu portas, estendeu olhares e, mais percorria as estradas, mais encontrava ela vidas e vidas à espera de seu toque. Estendia-se, ligeira, ostentando brilhos e enfeitando as visões.

Pouco tempo após sua chegada, a luz havia abrigado em seu seio as esperanças do mundo. Da escuridão pouco restava… E este pouco, ai que triste!, vivia dentro das profundezas de alguns corações humanos onde, mesmo com todo seu infinito amor, a luz não conseguira chegar…

Photo by Thomas Willmott on Unsplash

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A CULPA NO PALCO

Do centro do palco ela olhava o teto, olhos vagos e opacos. Falava de culpa, descrevia em seu monólogo a dor profunda que o punhal representava ali em suas mãos. Não tinha lágrimas, a voz soava rouca.

De um instante para outro, loucuras à parte, ela se levantou, afastou a cadeira e gritou!

– É arte! A culpa é arte! A culpa é a arte da dor dilacerando o coração de dentro para fora!

Depois, olhos nos olhos da plateia, ela silenciou. Sentou-se novamente, jogou o punhal no chão e com ele gotas de sangue pingaram de suas mãos.

A cortina fechou antes que pudesse retirar a máscara.

Photo by Joshua Hanson on Unsplash

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FASCÍNIO

O fascínio dos sonhos nunca é o mesmo ao amanhecer. Quando os olhos se abrem e as imagens fogem para algum lugar lá dentro de nós, ficamos entre o desejo de fechá-los novamente e correr atrás do que estávamos vivendo e o impulso natural de erguer o corpo, já esquecendo, já tudo deixando para trás. Apenas, há sonhos que são persistentes e demonstram sua pertinácia voltando em outras noites…

Estes sonhos que renegam a nossa própria vontade e independem de nosso consentimento consciente, trazem como num filme cenas que podem ir e vir, personagens que vivem e revivem cenas, épocas que passeiam entre o ontem e o amanhã. Não são proféticos, não são patéticos, não são poéticos. São sonhos vivos. Em muitos instantes bem mais do que a própria vida despertada.

Nada de sonhos que vem de braços dados com interrogações. Ou dançando na mente como certas pinturas ditas de arte moderna… Nada de figurações anônimas…

Sonhos pertinentes. Sonhos frementes. Sonhos que nos fazem querer saber de que lado da vida afinal estamos… agora!

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Contos e crônicas Desvarios

(IN)GRATIDÃO

_ Eu não quero que voltes nunca mais aqui!

_ Mas como? Eu preciso… eu…

_ Não, não precisa. Ninguém merece. Esta terra não merece. Me promete. Me diz que não vais mais voltar aqui.

_ Mas eu…

_ Esta é uma terra de ingratidão. De perfídia. Olha pra mim, olha pra trás. Achas mesmo que vale a pena botar os pés aqui novamente?

_ Eu…

_ Daqui a pouco estou partindo. Quem te queria bem já foi antes de mim. Agora nada mais restou. Pega tudo o que é teu, pega os teus e nunca mais volta aqui depois que eu me for.

Argumentos não foram possíveis. O tempo de pensar neles e chegou a hora de sua partida. Houve um entendimento, um acordo, uma promessa? Não sei. Mas a gratidão me punia com a obrigação de ceder e concordar.

Uma dor no coração forte, punhal de saudade atravessando. E ao mesmo tempo as palavras, as mesmas palavras, retirando o punhal e estancando o sangue:

_Nesta terra não há nada mais para ti. Acabou. É o fim.

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Contos e crônicas

MANTER A DESORDEM

Zulmira chegara cedo ao trabalho e já tinha, com toda sua eficiência, realizado praticamente todo o serviço do dia. Olhava sua mesa, organizada como sempre, quando chegou o colega.

_ Pelamordedeus! Vai desculpando aí, mas de hoje não passa, não vou aguentar não!

-_O que foi criatura?

_ Tua mesa tá toda arrumada como sempre, que coisa! Bota bagunça nesta mesa Zulmira!

_Bagunça? Tá maluco Oriel? Eu não sei trabalhar com bagunça não.

_ Zulmira, entende uma coisa e de uma vez por todas minha linda: se não tem bagunça na tua mesa é porque tu não tem trabalho, tá na mamata! Todo mundo aí fala, viu… Já escutei cada coisa… Zulmira fica só navegando, Zulmira não quer nem saber…

– O que? Tá doido? Meu serviço tá em dia! Sempre tá em dia! Não sou dessas aí não visse!

– Isto eu sei. Mas e os outros? E pior ainda: e o Chefe? De longe eles olham e a tua mesa tá sempre brilhando, tem nem uma folhinha em cima…

– Credo… quer dizer que se não tem um monte de porcaria espalhada é porque eu não trabalho, é isto?

– Certinho como deusnocéu, nega!

– Puxa…

– Tasca bagunça nessa mesa mulher!

Zulmira abriu as gavetas e começou: duas páginas de uma carta já feita de um lado; três arquivos já preparados de outro; um monte de folhas que ia jogar fora… Espalhou tudo pela mesa. Ficou horrorizada olhando aquela zona, mas se acalmou quando ouviu

– Tá aí. Aprendeu amiga! Agora é só manter a desordem que ninguém mais nem olha teu serviço!

E Zulmira, com os olhos ainda arregalados, viu o colega sentar-se na mesa ao lado da sua, a mesa sempre cheia de lixo, ela pensava. Mas agora tinha entendido. Não era falta de eficiência do seu vizinho de sala, era só mais uma cortina estendida para afastar fofoqueiros. Olhou sua mesa e começou a achar pouca desordem. Então abriu novamente a gaveta e sorriu pensando em tudo que acrescentaria para manter a desordem em dia!

Photo by Ferenc Horvath on Unsplash

Contos e crônicas

DESABROCHAR

DESABROCHAR POSTADO

Ela despiu o corpo e entregou-se ao tempo. Vestia somente a alma, de amor viva. Toda sua juventude começava a florescer sem que nem mesmo se desse conta…
Verdes folhas nos olhos… Rosas vermelhas nos lábios… As pétalas doces do campo sobre as faces…
Ele alcançou-a com os olhos e abrigou o olhar em suas mãos:
eram pequenas e ele podia imaginar que o sabor era doce. Toda sua eternidade começava a cansar e nem mesmo todas as possibilidades mudavam algo. Hesitava tocá-la, sentia medo de que o peso dos seus anos a transformasse ali, agora.
Ela sentiu o receio. Sorriu. Deu então dois passos na direção do tempo e o abraçou… –
_ Faço parte de ti, disse ela!
E sem mais uma palavra, Primavera começou a caminhar ao lado do Tempo!

Photo by andrew welch on Unsplash

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PROFUNDAS CLAUSTROFOBIAS

Não é muito simples tentar identificar emoções. Principalmente quando elas são boas. Geralmente é o caso de se dizer: se tá bom, fica quieto. Mas eu não sou assim. Tá bom é? Então eu preciso saber por que que tá “tão” bom… mesmo se eu reconheço que o efeito de certos navegadores é eficaz neste imenso oceano da vida…, mas eu sou assim… Preciso de razões justamente quando não deveria precisar.

De repente, nos últimos dias me pego rindo do fato de estar com uma dor danada. Ou falando da fadiga extrema que me toma com o maior sorriso nos lábios… estranho?

Estranho… bem estranho… O telefone toca e a minha vontade é de jogá-lo no lixo, assassinar a pessoa que está ligando, mas me levanto lentamente, olho o número, pego o aparelho e, lentamente, coloco-o dentro do armário. Gestos que não são meus. A raiva contida é. Os gestos não.

Começo a falar, a pensar, tudo se confunde… um amontoado de pensamentos. Sonhei, pensei, falei? Algumas coisas parecem se tornar mais racionais, outras completamente irracionais. Gasto a sola dos sapatos da razão tentando encontrar uma única dica… e vem a imagem que me apavora: um submarino! Eu estou fazendo a maior festa num submarino! Logo eu, que tenho horror de submarinos!

Por isto tudo está bem… agora começo a entender… a música (Tina Charles cantava agora há pouco Love me Like a Lover), as pessoas indo e vindo, os meus sorrisos, o humor meio deslocado e o comportamento mais que distante de mim… estou fazendo a maior festa dentro de um submarino!

 Lá fora, litros e litros de água (para evitar a pesada palavra toneladas) envolvem o submarino e dentro dele estou eu… (meu coração ritmado agora com Evelyn Thomas cantando Heartless…) completamente surreal.

A imagem me causa um pavor profundo. Me entrega a uma claustrofobia impossível de controlar ou disfarçar. Aqui das profundezas nem ouso gritar. De nada serviria. Dentro do submarino tudo é falso, meus gritos nem ecoariam nas paredes.

E o oceano imenso que está sobre mim é pesado demais, escuro demais, grande demais. Qualquer grito seria abafado.

Eis a grande diferença entre uma crise de pânico quando se está na beira na praia, com os pés na pontinha das ondas do mar… e uma crise de pânico quando se está submerso no oceano, tão submerso, que já não se sente mais os movimentos das águas… não se consegue mais sentir… não se consegue mais respirar… não se consegue mais…

(Texto de alguns anos atrás (2014, 2015?), baseado em um momento vivido em 2007 e que foi o gatilho para muitas coisas que vieram depois)

Photo by Nate Neelson on Unsplash

Contos e crônicas

PONTOS À VISTA

Eu… eu tenho um ar de mistério. Um poder imperceptível, uma gota de qualquer coisa que não é possível perceber de imediato, pois está sob camadas e camadas de… mais incógnitas.


Eu… eu tenho um amor infinito. Sou capaz de viver morta e, morta, permanecer viva pelo simples desejo de amar de novo o mesmo e o mesmo amor.

Eu… eu tenho em mim formas de sedução que me assustam mais a mim mesma do que qualquer outro ser… assustam e perturbam tanto que ele quer correr, se esconder.

Eu… eu já fui capaz de amar através dos tempos e dos séculos, contra tudo e todos os tempos, não exigindo, não pedindo, mas secretamente questionando.

Eu… eu sou intensa, eu vibro mesmo se eu não estou em cena. Meus olhos, incomuns, fortes, trazem um olhar doce, apaixonado.

Eu… eu sou capaz de esperar, mas esperar lutando, mesmo lentamente, de maneira quase invisível. Lutar por emoções e considerá-las vitórias.

Eu… eu tenho uma força além do comum, assim como a força para viver. Eu tenho fome de viver. E as emoções me fortalecem mesmo quando me abandono.

Eu… eu durmo na minha terra, eu vivo na noite e os óculos escuros não escondem jamais o olhar penetrante.

Eu… eu tenho palavras fortes a dizer.

Ele… ele tem um ar de mistério. Um poder imperceptível, uma gota de qualquer coisa que não é possível perceber de imediato, pois está sob camadas e camadas de… mais incógnitas.

Ele… ele tem um amor infinito. É capaz de viver morto e, morto, permanecer vivo pelo simples desejo de amar de novo o mesmo e o mesmo amor.

Ele… ele tem em si formas de sedução que assustam mais a ele mesmo do que a qualquer outro ser… assustam e perturbam tanto que ele quer correr, se esconder.

Ele… ele já é capaz de amar através dos tempos e dos séculos, contra tudo e todos os tempos, não exigindo, não pedindo, mas secretamente questionando.

Ele… ele é intenso, ele vibra mesmo se ele não está em cena. Seus olhos, incomuns, fortes, trazem um olhar doce, apaixonado.

Ele… ele é capaz de esperar, mas esperar lutando, mesmo lentamente, de maneira quase invisível. Lutar por emoções e considerá-las vitórias.

Ele… ele tem uma força além do comum, assim como a força para viver. Ele tem fome de viver. E as emoções lhe fortalecem mesmo quando lhe abandonam.

Ele… ele dorme na sua terra, ele vive na noite e os óculos escuros não escondem jamais seu olhar penetrante.

Photo by Jake Davies on Unsplash

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ANTES DO FIM

Ela para silenciosa diante da porta. Deixa que seus olhos entrem, a porta fechada, seus passos emudecidos pela ansiedade. Se fosse a primeira vez!

Dentro, ele dança os pés em movimentos tortos. Sorri, tem vontade de gritar o quanto é bom esperá-la, saber que virá. Antes dela, tudo era bom. Porque era normal. Ou tudo era normal porque era bom. Ou talvez nem uma coisa nem outra. Agora tudo era diferente. O sabor dela estava em tudo: na voz, no riso, no silêncio, em todos os gestos decifrados pela cumplicidade apaixonada do segredo.

Ela traz de volta para si os olhos e sente a presença efervescente dele. Bonito? Não sabia dizer. Mais inteligente do que os outros? Não… Melhor do que seu outro que nem era o outro? Não… Então o quê? Por que estar ali, diante daquela porta, ofegante, segurando os dedos apressados de correrem para a maçaneta?

Pensativo ele se dizia que se fosse um bicho seria… seria… um urso! Não… um leão… ou… não importava… qualquer qualidade ou defeito perdia a força só porque daqui a instantes ela estaria ali e ele seria capaz de tudo. Ele sabia o quanto sempre fora reprimido, o quanto se sentira acabado, angustiado, perto do fim. Aí ela surgira. Ou melhor, começara a aparecer diante dos seus olhos negligentes. Não podia imaginar é que um dia ela o olhasse, conseguisse ver nele o que ninguém mais via: o homem adormecido, quase morto, o jovem dentro de um corpo envelhecendo sem seu consentimento.

Ela alcança a maçaneta, arruma os cabelos e lembra da primeira vez. Complicada como se fosse coisa de adolescente. Nem achava que ainda existisse um homem no mundo de hoje cavalheiro como ele, tímido daquele jeito, que ficasse cor de rosa, vermelho mesmo, só com um olhar. Ingênuo? Pensava que não. Mas talvez fosse. Doce… tão cheio de carinho, um poço! E forte, tocava nela como se fosse um tesouro, uma peça única, rara. Com ele não havia necessidade de fingir, de ser outra. Era ela a outra. E bastava. Ainda sentia o corpo todo arrepiar, um friozinho besta passar… o desejo continuava forte e a porta estava só precisando ser aberta.

Demora! Passavam já cinco minutos do horário marcado. Tudo bem, não era nada. Demora da hora, demora dela, demora da saudade, demora desta vontade louca de tê-la e nunca mais devolvê-la! Ele tinha esquecido quanto tempo fazia que não usava estes termos: saudade, amor, paixão! Com ela tudo vinha mágico, sem raciocínio, apenas a pele clara, o corpo maduro da mulher que ele abraçava e desejava que fosse só seu. Uma vez, há muito tempo atrás, pensara no fato de ter uma amante, como a maioria dos seus amigos. Descartara a ideia. Agora, quando a via entrando, sorrindo, lentamente chegando e beijando seu rosto, seu corpo, suas mãos ultrapassando seus limites, ele se perguntava ainda. Não conseguia chamá-la amante, mas sim, de amor. Ela sentia o rubor encher-lhe a face esvaziando os pensamentos. Quanto estavam juntos não queria que o tempo passasse. E se passasse, que acabasse ali, de uma vez, para que não precisasse retornar a nenhum outro mundo. Nem deixá-lo tampouco. Eram mundos diferentes e, cliché, iguais. A velha história do tudo que é igual separa. Apenas, quando seus lábios deixavam de ser seus lábios e se tornavam uma fonte inesgotável de paixão, sabia-se capaz de tudo. A cada instante. Desejava dele o momento. E no momento, o corpo e a presença. Amava percorrer todos os caminhos daquele ser temeroso de deixar-se ir.

Ele havia perdido os preconceitos do corpo imperfeito, da idade não mais tão jovem. Hesita e abre os olhos. Ela está ali! A cada vez é a mesma coisa… quer olhá-la… mas tem medo que o desejo afugente o sonho… Logo agora que com ela havia se descoberto novamente homem. E era novamente todo princípio. E fim. E não num sonho perfeito, mas na sua realidade, imperfeita que fosse.

Photo by Pablo Heimplatz on Unsplash

Contos e crônicas

ESMERALDA

Nascida nas estradas da vida, ela era uma estrela, Esmeralda. Estrela de olhos de mar. Navegava a vida, cavalgando ondas e catando conchas. De vez em quando se perdia, meio que se afogava, engolia água, perdia pé, sentia medo. Mas sempre voltava à tona. Mais forte, com menos raízes e asas mais largas. As pessoas não entendiam como o sofrimento, que era o alimento maior daquela mulher, não conseguia acabar com ela. Esmeralda alimentava-se de dor. Era uma sobrevivente das dores da vida nas suas mais diversas expressões. Usava as marcas como adorno e seguia. A beleza de suas rugas não a deixaria mentir: era única! E acima de tudo, ela era a alegria de suas roupas coloridas, de seus colorares dourados, dos brincos que dançavam quase sobre os ombros. Mulher de fibra, Esmeralda era cigana.

Photo by Lance Asper on Unsplash