Textos

Nas próximas páginas você encontrará meus textos para sua leitura.
São textos compilados através dos anos, chegando à atualidade.
Dividi em três categorias: Poemas, Contos e Crônicas e Desvarios (onde se encontram minhas frases e pensamentos).
Os textos mais antigos guardam seus aspectos primeiros, ou seja, se falam da atualidade da época ou se retratam um momento específico de minha vida, não foram atualizados.
Achei correto manter o conteúdo original por entender que cada pedaço da vida da gente é importante do seu jeito.
Muitos destes textos já foram publicados em livros meus e algumas antologias de amigos. Para conhecer melhor minhas publicações, visite a seção deste site intitulada Meus Livros.

Blog Contos e crônicas

BACURAU NA GENTE!

Finalmente aconteceu Bacurau na minha vida. Forte, pleno e rico. Pois é, tem coisas que só a arte pode fazer por nós. Porque muitas vezes não vemos direito, não entendemos direito, as coisas se embrulham, a gente tem aquela certeza da certeza que seria uma verdade.

Assisti Bacurau, precavida. É violento! É diferente! É… Lindo, Bacurau é lindo! Bacurau não é só um filme, é uma cura instantânea de desintoxicação para a mente plena de preconceitos subconscientes, uma dose forte de remédio contra a apatia de consciência e, acima de tudo, um bálsamo para a sofrida alma brasileira onde quer que ela esteja.

Em palavras mudas, gritos silenciados, o Nordeste que o Sul não vê e não quer saber. As alegorias (“Por que tão velho, tão nu?) que reverenciam a sabedoria da idade, a naturalidade de um povo. (Quer dormir comigo hoje? Tu não estás de luto? Não sou religiosa!). As dualidades da idade, do ser mulher, não ser, ser homem, não ser, de existir.

O Museu (o sangue, a história, o sangue, a memória, o sangue…). A Escola (livros no chão, crianças no chão, a vida no chão). A Igreja de portas fechadas (Eu queria ir na Igreja, mas a porta está fechada). Mas as portas da Igreja nunca fecham… A horta, a humildade, as balas voando, a felicidade, o enterro, os caixões vazios…

Há política e o político vem. Mas não é a política que não presta, é o ser humano, o “político” que se apropria do social e se vende por poder. Há a diversão, a festa, a dor, o sonho, a esperança… Há a luta.

Bacurau não se deixa morrer (É tarja preta. Inibe o humor. O Brasil inteiro está tomando. Eu não aconselho. Lixo).

Bacurau resiste. Resiste aos maus políticos, aos homens maus, às más intenções. Bacurau é resistência. Arte é resistência.

Acabei de assistir, e senti imediatamente o resultado profundo. Senti raiva do Brasil senti amor pelo Nordeste que não parece fazer parte desse mesmo Brasil, tão racista e arrogante.

E agora, enquanto escrevo, depois do massacre de Paraisópolis, das professoras apanhando nas ruas no Rio Grande do Sul, do senhor espancado até a morte em Santa Catarina, dos procuradores injustos do Paraná, sinto um choque de realidade que me faz ver que o genocídio que eu pensei que pudesse acontecer, já está acontecendo.

O Brasil está sendo vendido em peças separadas. O povo pobre, preto, sendo morto aos montes. Parte do povo assiste e aplaude. Há aquela parte Bacurau, que esbraveja, empurra, grita a verdade. Mas a grande, grande parte do povo, está ainda sob tarja preta.

Bacurau, finalmente, permaneceu no mapa. Mas o Brasil que conhecemos pode, a qualquer instante, desaparecer dele. Porque está ou anestesiado, ou doente de ódio.

Acorda, Brasil!

Voa, Bacurau! E se for, vá na paz!

Arte de Sarah Biegler (encontrei no Google, espero que a artista não se incomode com este empréstimo)

Contos e crônicas Textos

DA VIOLÊNCIA DA PAIXÃO

Meu pensamento capturou de ti a imagem. Meu coração, apenas a essência. Agora, preso que estás dentro de mim, me diga: para que liberdade se a paixão acorrenta e amordaça e ainda assim o corpo não pede outra coisa…?
Meu corpo tem o teu corpo nesta tortura infinita de gestos e palavras que inflamam e provocam reações inesperadas.
Não há alma na paixão; se houvesse ela poderia voar para outros cantos e entoar outros cantos que não fossem as intensas melodias do corpo.
Só há corpo na paixão que amanhece alguns sentidos e anoitece outros.
A paixão que é fúria e com frenesi desperta o sonho e o calor do corpo antes adormecido pelo amor, dormente da rotina.
Desta prisão em que te encontras, celas abertas e sem algemas, me diga: queres partir?

Photo by Sweet Ice Cream Photography on Unsplash

Poemas Textos

A LARVA

Quieta em seu canto ela impaciente espera…

Passa o tempo como se estivesse adormecida…

Tantas virtudes acumuladas na gaveta!

Sonhos tão cheios de glória, que nem ousa crer…

Dentro dela encontram-se as cores todas e no fundo…

somam-se e formam a mais linda paleta!

Se o tempo lhe parece infinito e ela solitária desespera…

Sem querer crer num futuro ou ver um sentido na vida…

Sabe em seu âmago que falta pouco para estar completa.

Virá em breve a libertação do corpo que só faz lhe prender…

Nascerão asas e ela poderá partir pelo mundo:

Não terá fronteiras, voará alegre e linda borboleta!

Photo by Ryan Jacques on Unsplash

Poemas Textos

A LUZ DO DIA

Antes de cada noite
ainda será dia
e mesmo 
a tarde
ainda será dia…
e mesmo se o sol estiver
no berço amável das nuvens
ainda será dia.
Há esperança
no dia.
A bonança
do dia…
mesmo após a tempestade
mesmo após o açoite do vento
no dia
há a luz
brilhante luz 
cinzenta luz 
tão branca luz
a luz do dia…
doce esperança
da luz
do dia!

Photo by Ben White on Unsplash

Contos e crônicas Textos

A LUZ

Fez-se luz. E então percebeu-se pela primeira vez a existência da escuridão. Povoada e plena. Viva e diferente. Em sua exuberância a luz mostrou a imensidade da escuridão.

Trouxe com ela cores desconhecidas e espantos. Arrancou o manto das terras todas, desabrigou os corpos. Deu vida às sombras, chamou pelo nome uma por uma das criaturas.

Revelou segredos, rachou esperanças, quebrou os paradigmas. Acabou com as desculpas, desinteressou o silêncio e o ócio, acordou as vozes e os olhares. Tropeçou nos medos, escancarou agonias, penetrou o mais profundamente que pode as entranhas dos longínquos recônditos.

Abriu o ventre dos sonhos mortos e desencobriu alegrias dormentes. Baniu as recordações geradas por dores acumuladas. Libertou asas e pés atristados pela imobilidade. Desatou os nós dos braços e mãos deixando abraços surgirem repentinos.

Iluminadas, as águas refletiam os céus. O balançar fazia dançar as estrelas que agora luziam. Curiosa, veio a lua espiar… Gostou do falario animado, pendurou-se entre umas poucas nuvens e lá permaneceu.

A claridade, suprema, escondeu chaves, abriu portas, estendeu olhares e, mais percorria as estradas, mais encontrava ela vidas e vidas à espera de seu toque. Estendia-se, ligeira, ostentando brilhos e enfeitando as visões.

Pouco tempo após sua chegada, a luz havia abrigado em seu seio as esperanças do mundo. Da escuridão pouco restava… E este pouco, ai que triste!, vivia dentro das profundezas de alguns corações humanos onde, mesmo com todo seu infinito amor, a luz não conseguira chegar…

Photo by Thomas Willmott on Unsplash

Contos e crônicas Textos

A CULPA NO PALCO

Do centro do palco ela olhava o teto, olhos vagos e opacos. Falava de culpa, descrevia em seu monólogo a dor profunda que o punhal representava ali em suas mãos. Não tinha lágrimas, a voz soava rouca.

De um instante para outro, loucuras à parte, ela se levantou, afastou a cadeira e gritou!

– É arte! A culpa é arte! A culpa é a arte da dor dilacerando o coração de dentro para fora!

Depois, olhos nos olhos da plateia, ela silenciou. Sentou-se novamente, jogou o punhal no chão e com ele gotas de sangue pingaram de suas mãos.

A cortina fechou antes que pudesse retirar a máscara.

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Poemas

AUSÊNCIA E PRESENÇA

E a ausência nua
tendo se tornado saudade
amplifica os sentidos:
cheiro
voz
presença tua em mim.
Em meus pensamentos
sentimentos que se disfarçam
em olhares perdidos.
Na primeira ocasião
em que teus olhos encontrarem os meus…
sem surpresa
revelar-se-á a paixão…
Nos poros, arrepios de pele encantada
como serpente.
Nos lábios, umedecidos e frementes
Nas mãos, agitadas e incandescentes.
Se hoje há a ausência crua
ela só serve para aumentar a voracidade…
lembrança do cheiro
da voz, do calor…
presença tua enfim.

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Blog Contos e crônicas

FASCÍNIO

O fascínio dos sonhos nunca é o mesmo ao amanhecer. Quando os olhos se abrem e as imagens fogem para algum lugar lá dentro de nós, ficamos entre o desejo de fechá-los novamente e correr atrás do que estávamos vivendo e o impulso natural de erguer o corpo, já esquecendo, já tudo deixando para trás. Apenas, há sonhos que são persistentes e demonstram sua pertinácia voltando em outras noites…

Estes sonhos que renegam a nossa própria vontade e independem de nosso consentimento consciente, trazem como num filme cenas que podem ir e vir, personagens que vivem e revivem cenas, épocas que passeiam entre o ontem e o amanhã. Não são proféticos, não são patéticos, não são poéticos. São sonhos vivos. Em muitos instantes bem mais do que a própria vida despertada.

Nada de sonhos que vem de braços dados com interrogações. Ou dançando na mente como certas pinturas ditas de arte moderna… Nada de figurações anônimas…

Sonhos pertinentes. Sonhos frementes. Sonhos que nos fazem querer saber de que lado da vida afinal estamos… agora!

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Poemas

ROTINA

Enquanto eu tentava achar uma roupa
ela passava roupas em silêncio.
O mesmo silêncio que entre nós
se fazia absurdo
surdo
um penhasco, um abismo.
Já fazia tempo.
Quanto tempo?
Que para as perguntas dos olhos
nenhuma resposta tinha.
Ela sozinha.
E eu também.
O mesmo teto, o mesmo afeto.
Nenhum desejo.
Apenas o ensejo
de deixar passar…

Photo by Filip Mroz on Unsplash

Poemas

A CHUVA E EU

Ando sob a chuva
ela cai e seu barulho é música
seus pingos bênçãos
seu odor, perfume.
A chuva é minha companheira
com ela converso em silêncio
e as emoções vivas
ficam em mim marcadas.
Ela pode vir mansa
ou tempestade
pode ser água
ou pedra…
Pode dar vida
ou ferida.
Eu também.

Photo by Ani Kolleshi on Unsplash

Contos e crônicas Desvarios

(IN)GRATIDÃO

_ Eu não quero que voltes nunca mais aqui!

_ Mas como? Eu preciso… eu…

_ Não, não precisa. Ninguém merece. Esta terra não merece. Me promete. Me diz que não vais mais voltar aqui.

_ Mas eu…

_ Esta é uma terra de ingratidão. De perfídia. Olha pra mim, olha pra trás. Achas mesmo que vale a pena botar os pés aqui novamente?

_ Eu…

_ Daqui a pouco estou partindo. Quem te queria bem já foi antes de mim. Agora nada mais restou. Pega tudo o que é teu, pega os teus e nunca mais volta aqui depois que eu me for.

Argumentos não foram possíveis. O tempo de pensar neles e chegou a hora de sua partida. Houve um entendimento, um acordo, uma promessa? Não sei. Mas a gratidão me punia com a obrigação de ceder e concordar.

Uma dor no coração forte, punhal de saudade atravessando. E ao mesmo tempo as palavras, as mesmas palavras, retirando o punhal e estancando o sangue:

_Nesta terra não há nada mais para ti. Acabou. É o fim.

Photo by louis tricot on Unsplash