Contos e crônicas

DARK ALICE

Alice, ela morreu. Num poema que construí há tempos atrás (alguns anos, muitos, nem sei mais), a morte daquele personagem que viveu aventuras no País das Maravilhas, se anunciava em tons leves. Ainda assim, uma parte dela tentava sobreviver: curiosidade? esperança? senso de aventura? audácia de um coração permanentemente jovem?

Alice, personagem não de conto de fadas, mas de história fantasticamente rude e cruel. Para mexer com crianças habitantes em corpo de adultos. Almas quase penadas. Contos dentro de contos, fantasias sem nenhuma fantasia. Eu brinco se você brincar. Não brinco mais. Quero desaparecer daqui. Vocês me sufocam!

Repentinamente Alice retorna e não há maravilhas na realidade. Não tem como voltar igual, permanecer inocente após experienciar o tempo sem barreiras; reverenciar a loucura como maneira de viver; combater a soberania do conservadorismo e do poder até abater a dor e ser abatida por ela. A vida must go on. Mas nunca mais com ingenuidade.

Sem frio na barriga, sem olhar surpreso, sem magia na voz, sem sonhos. Alice recusa espelhos. Não quer presente ridículo em troca de sua própria vida. Despiu-se das roupas azuis e brancas e vestiu dark. Anoiteceu em si mesma através do que vestia. Deixou de percorrer ruas ou florestas. Por detrás do computador assumiu-se Dark Alice. O lado escuro da força (despida de preconceitos, mas identificando-se com as forças maléficas do universo starwarsístico).

Dark Alice, olhar pouco vivo porque nem há o que olhar. Falar manso, porque também nem há o que falar. Andar alquebrado, porque já não há onde ir. Dark Alice que só volta (por ínfimos segundos) a ser a velha pequena Alice, de cabelos longos e soltos, de vestido azul e avental branco… quando relembra certas coisas das quais não fala mais.

Semblante fechado, silêncio guardado, Dark Alice sabe quem é. E hoje o medo é nela não a agonia da falta de coragem, mas aquele significado mesmo de duna, que represa o mar que lhe correria dos olhos se fosse ainda capaz de chorar.

Photo by SAMANTA SANTY on Unsplash

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