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BACURAU NA GENTE!

Finalmente aconteceu Bacurau na minha vida. Forte, pleno e rico. Pois é, tem coisas que só a arte pode fazer por nós. Porque muitas vezes não vemos direito, não entendemos direito, as coisas se embrulham, a gente tem aquela certeza da certeza que seria uma verdade.

Assisti Bacurau, precavida. É violento! É diferente! É… Lindo, Bacurau é lindo! Bacurau não é só um filme, é uma cura instantânea de desintoxicação para a mente plena de preconceitos subconscientes, uma dose forte de remédio contra a apatia de consciência e, acima de tudo, um bálsamo para a sofrida alma brasileira onde quer que ela esteja.

Em palavras mudas, gritos silenciados, o Nordeste que o Sul não vê e não quer saber. As alegorias (“Por que tão velho, tão nu?) que reverenciam a sabedoria da idade, a naturalidade de um povo. (Quer dormir comigo hoje? Tu não estás de luto? Não sou religiosa!). As dualidades da idade, do ser mulher, não ser, ser homem, não ser, de existir.

O Museu (o sangue, a história, o sangue, a memória, o sangue…). A Escola (livros no chão, crianças no chão, a vida no chão). A Igreja de portas fechadas (Eu queria ir na Igreja, mas a porta está fechada). Mas as portas da Igreja nunca fecham… A horta, a humildade, as balas voando, a felicidade, o enterro, os caixões vazios…

Há política e o político vem. Mas não é a política que não presta, é o ser humano, o “político” que se apropria do social e se vende por poder. Há a diversão, a festa, a dor, o sonho, a esperança… Há a luta.

Bacurau não se deixa morrer (É tarja preta. Inibe o humor. O Brasil inteiro está tomando. Eu não aconselho. Lixo).

Bacurau resiste. Resiste aos maus políticos, aos homens maus, às más intenções. Bacurau é resistência. Arte é resistência.

Acabei de assistir, e senti imediatamente o resultado profundo. Senti raiva do Brasil senti amor pelo Nordeste que não parece fazer parte desse mesmo Brasil, tão racista e arrogante.

E agora, enquanto escrevo, depois do massacre de Paraisópolis, das professoras apanhando nas ruas no Rio Grande do Sul, do senhor espancado até a morte em Santa Catarina, dos procuradores injustos do Paraná, sinto um choque de realidade que me faz ver que o genocídio que eu pensei que pudesse acontecer, já está acontecendo.

O Brasil está sendo vendido em peças separadas. O povo pobre, preto, sendo morto aos montes. Parte do povo assiste e aplaude. Há aquela parte Bacurau, que esbraveja, empurra, grita a verdade. Mas a grande, grande parte do povo, está ainda sob tarja preta.

Bacurau, finalmente, permaneceu no mapa. Mas o Brasil que conhecemos pode, a qualquer instante, desaparecer dele. Porque está ou anestesiado, ou doente de ódio.

Acorda, Brasil!

Voa, Bacurau! E se for, vá na paz!

Arte de Sarah Biegler (encontrei no Google, espero que a artista não se incomode com este empréstimo)

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