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A LUZ

Fez-se luz. E então percebeu-se pela primeira vez a existência da escuridão. Povoada e plena. Viva e diferente. Em sua exuberância a luz mostrou a imensidade da escuridão.

Trouxe com ela cores desconhecidas e espantos. Arrancou o manto das terras todas, desabrigou os corpos. Deu vida às sombras, chamou pelo nome uma por uma das criaturas.

Revelou segredos, rachou esperanças, quebrou os paradigmas. Acabou com as desculpas, desinteressou o silêncio e o ócio, acordou as vozes e os olhares. Tropeçou nos medos, escancarou agonias, penetrou o mais profundamente que pode as entranhas dos longínquos recônditos.

Abriu o ventre dos sonhos mortos e desencobriu alegrias dormentes. Baniu as recordações geradas por dores acumuladas. Libertou asas e pés atristados pela imobilidade. Desatou os nós dos braços e mãos deixando abraços surgirem repentinos.

Iluminadas, as águas refletiam os céus. O balançar fazia dançar as estrelas que agora luziam. Curiosa, veio a lua espiar… Gostou do falario animado, pendurou-se entre umas poucas nuvens e lá permaneceu.

A claridade, suprema, escondeu chaves, abriu portas, estendeu olhares e, mais percorria as estradas, mais encontrava ela vidas e vidas à espera de seu toque. Estendia-se, ligeira, ostentando brilhos e enfeitando as visões.

Pouco tempo após sua chegada, a luz havia abrigado em seu seio as esperanças do mundo. Da escuridão pouco restava… E este pouco, ai que triste!, vivia dentro das profundezas de alguns corações humanos onde, mesmo com todo seu infinito amor, a luz não conseguira chegar…

Photo by Thomas Willmott on Unsplash

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