Contos e crônicas

ANTES DO FIM

Ela para silenciosa diante da porta. Deixa que seus olhos entrem, a porta fechada, seus passos emudecidos pela ansiedade. Se fosse a primeira vez!

Dentro, ele dança os pés em movimentos tortos. Sorri, tem vontade de gritar o quanto é bom esperá-la, saber que virá. Antes dela, tudo era bom. Porque era normal. Ou tudo era normal porque era bom. Ou talvez nem uma coisa nem outra. Agora tudo era diferente. O sabor dela estava em tudo: na voz, no riso, no silêncio, em todos os gestos decifrados pela cumplicidade apaixonada do segredo.

Ela traz de volta para si os olhos e sente a presença efervescente dele. Bonito? Não sabia dizer. Mais inteligente do que os outros? Não… Melhor do que seu outro que nem era o outro? Não… Então o quê? Por que estar ali, diante daquela porta, ofegante, segurando os dedos apressados de correrem para a maçaneta?

Pensativo ele se dizia que se fosse um bicho seria… seria… um urso! Não… um leão… ou… não importava… qualquer qualidade ou defeito perdia a força só porque daqui a instantes ela estaria ali e ele seria capaz de tudo. Ele sabia o quanto sempre fora reprimido, o quanto se sentira acabado, angustiado, perto do fim. Aí ela surgira. Ou melhor, começara a aparecer diante dos seus olhos negligentes. Não podia imaginar é que um dia ela o olhasse, conseguisse ver nele o que ninguém mais via: o homem adormecido, quase morto, o jovem dentro de um corpo envelhecendo sem seu consentimento.

Ela alcança a maçaneta, arruma os cabelos e lembra da primeira vez. Complicada como se fosse coisa de adolescente. Nem achava que ainda existisse um homem no mundo de hoje cavalheiro como ele, tímido daquele jeito, que ficasse cor de rosa, vermelho mesmo, só com um olhar. Ingênuo? Pensava que não. Mas talvez fosse. Doce… tão cheio de carinho, um poço! E forte, tocava nela como se fosse um tesouro, uma peça única, rara. Com ele não havia necessidade de fingir, de ser outra. Era ela a outra. E bastava. Ainda sentia o corpo todo arrepiar, um friozinho besta passar… o desejo continuava forte e a porta estava só precisando ser aberta.

Demora! Passavam já cinco minutos do horário marcado. Tudo bem, não era nada. Demora da hora, demora dela, demora da saudade, demora desta vontade louca de tê-la e nunca mais devolvê-la! Ele tinha esquecido quanto tempo fazia que não usava estes termos: saudade, amor, paixão! Com ela tudo vinha mágico, sem raciocínio, apenas a pele clara, o corpo maduro da mulher que ele abraçava e desejava que fosse só seu. Uma vez, há muito tempo atrás, pensara no fato de ter uma amante, como a maioria dos seus amigos. Descartara a ideia. Agora, quando a via entrando, sorrindo, lentamente chegando e beijando seu rosto, seu corpo, suas mãos ultrapassando seus limites, ele se perguntava ainda. Não conseguia chamá-la amante, mas sim, de amor. Ela sentia o rubor encher-lhe a face esvaziando os pensamentos. Quanto estavam juntos não queria que o tempo passasse. E se passasse, que acabasse ali, de uma vez, para que não precisasse retornar a nenhum outro mundo. Nem deixá-lo tampouco. Eram mundos diferentes e, cliché, iguais. A velha história do tudo que é igual separa. Apenas, quando seus lábios deixavam de ser seus lábios e se tornavam uma fonte inesgotável de paixão, sabia-se capaz de tudo. A cada instante. Desejava dele o momento. E no momento, o corpo e a presença. Amava percorrer todos os caminhos daquele ser temeroso de deixar-se ir.

Ele havia perdido os preconceitos do corpo imperfeito, da idade não mais tão jovem. Hesita e abre os olhos. Ela está ali! A cada vez é a mesma coisa… quer olhá-la… mas tem medo que o desejo afugente o sonho… Logo agora que com ela havia se descoberto novamente homem. E era novamente todo princípio. E fim. E não num sonho perfeito, mas na sua realidade, imperfeita que fosse.

Photo by Pablo Heimplatz on Unsplash

Você pode gostar também de

Sem comentários

deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.