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ACIDEZ ESTOMACAL E FEBRE INCONTROLÁVEL

Nem sempre é simples. Na verdade não é simples nunca. Viver todas as vinte e quatro horas de cada dia com dor os sete dias da semana que somam os trinta ou trinta e um dias de cada mês não é coisa simples. Claro que há momentos em que se faz manobras para evitar que as dores se tornem mais vigorosas. Menos tenebrosas, vamos dizer. Momentos em que algumas dores adormecem, outras cochilam, mas outras ainda permanecem bem acordadas. São sim, vinte e quatro horas sentindo que o corpo padece. Padece das dores e de toda a medicação tomada para tentar acalmá-las.

E alma enfraquece assim? Enfraquece. Como o estômago que transborda sua acidez e as febres súbitas a superaquecer o organismo. Calor, frio, dores, uma agonia que tira a paciência, leva embora a alegria e mexe com o desejo profundo de existir.

Dentro desta conjuntura de anos a fio, a cronicidade agravando, havia a esperança, sempre, ao pensar e falar de meu ponto de amor mais profundo: meu país de nascimento, aquele que ousei emprestar o nome e colocar num varal de letras o qual, feliz, estendi pelo mundo. Aquele que foi meu orgulho e o que defendia com as unhas, os dentes e o ventre.

Mas agora… Como começar a dizer? Ou melhor, como terminar? Há mais de três anos venho sofrendo também da dor da perda lenta de meu próprio país. Vendo a gradativa falência dos órgãos do chão que meu deu raízes e estas raízes sendo arrancadas com o ódio e a força do egoísmo de uns poucos.

Um sofrimento que atualmente é gritante como minhas próprias dores físicas, já que meu país foi entregue e a destruição é tão grande, tão grande, mas tão grande, que o mundo já não grita por ele, apenas, e eu vejo e sinto isto com uma tristeza pesada, observa calado o abismo que o engole.

Pessoas cegas, tendo o fanatismo, a ganância e o ódio como viseiras, queimam florestas, assassinam índios, fauna e flora desaparecendo a olhos vistos. Todos os direitos trabalhistas esmigalhados, os direitos à saúde se esmorecendo a cada hora. O desrespeito e o racismo se tornando tão normais, chegando num ponto de não retorno. A educação sendo pisoteada e assim evitando que mais mentes possam crescer pensando e questionando. A cultura se tornando um caminho estreito ladeado por uma ideologia perigosa. A fome se agigantando outra vez, tomando o corpo dos infelizes.

Pobre Brasil! Pobre brasileiros que não desejaram colocar esses destruidores no poder e hoje sofrem as consequências brutais das decisões monstruosas tomadas por eles. Pobre Brasil! Tendo suas vísceras esmagadas por inomináveis seres que sequer fingem governar para o bem de todos.

Minhas raízes arrancadas, grito e esperneio sem parar. Meus gritos ecoam onde? Não sei. Talvez nem ecoem. Talvez meu sofrimento por ver meu país cair sem resistir me faça perceber que o que sinto no corpo nem é coisa a ser falada.

Hoje chove aqui tão longe do meu Brasil. Queria que chovesse lá. Uma chuva de água benta de amor ao próximo que lavasse os corações todos. Ou não. Às vezes é bom que chova. Mas ácido e canivetes. Para saciar a sede de certas criaturas, água não basta.

E eu que certamente não verei mais minha terra-mãe, morrerei um dia aqui ou ali com os pés arrebatados de lá. Portanto, sim, de todos os sofrimentos possíveis, a aflição por meus irmãos e por meu país destruído será a maior, a mais forte, a mais terrível dor que carregarei comigo até meu próprio fim.

Photo by Banter Snaps on Unsplash

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