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ABRAÇO O MUNDO

Porque assim somos, seguimos tantas vezes numa rapidez destoada, passos que não respiram, garganta cerrada de quantas palavras trancadas no ventre.

O tempo passa, ele vai adiante sem se preocupar se a gente acompanha ou não. E um belo dia tentamos lhe alcançar sem conseguir.

Volto, faço a volta. Não há caminho de volta. Será que saberia voltar? Mas… e afinal, quem precisa mesmo voltar?

Viver sem molhar os pés, sem virar de ponta cabeça, sem se torcer e retorcer, sem a dor do tentei, mas não deu. Viver do erro apontado, do erro negado, do erro sabido, do erro maltrapilho que se alimenta do medo e não deixa mais nada acontecer naturalmente. Não é possível viver sem se deixar levar pela vida. Pela mão, de olhos abertos ou fechados, como criança ou aos trambolhões.

É preciso dizer que aquilo que a solidão melhor ensina é ter uma fobia louca da gente mesmo e de tudo o que nos pode ser possível alcançar e realizar durante as caminhadas, mesmo aquelas não programadas. O absurdo do medo que não tem nome, que suplica à insegurança instantes a mais para nos matar eficazmente.

É assim com o passo dado e o tombo vivido. O levantar, a dor, a vergonha e a tristeza. É assim também com a fala engolida, quando se tenta soltá-la e ela sai tímida, amedrontada por respostas não dadas ou gritos que enxovalham. Também assim é com o sorriso interiorizado, aterrorizado, que se mostra numa fotografia e nas ruas não tem a ousadia de se exibir.

Outros foram os dias de chuva, de cinza e de escuridão. Todos eles interiores, que nuvens no céu não são capazes de descolorir o dia a tal ponto. Nem a chuva estraga o caminho de quem sabe onde vai ou sonha para onde deseja ir.

Hoje, na manhã começada, uma paz sem precedentes, um convite interior trouxe-me para fora de mim outra vez. Tinha me perdido tão longamente em minhas profundezas que senti uma certa dificuldade em compreender aquela vontade tão simples.

Eu queria abraçar o mundo. Queria abraçar a paisagem inteira que me recebia. Eu queria e então abri os braços, envolvi o mundo num longo e prazeroso abraço até que me senti novamente parte dele.

Abracei o mundo! Nossa, fazia tempo! Fazia tanto tempo do último abraço, que me veio instantaneamente o espanto: … Eu não sabia mais do tamanho, da grandeza dos meus próprios braços!

Photo by @fuuj on @unsplash

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2 comentários

  • responder
    Jeferson Barbosa da Silva - Poeta Garoeiro
    30 maio 2019 em 20 h 46 min

    Caríssima Jacqueline,
    Uau! Belíssima crônica-de-pleno-jorro, tão rica de recados e lições puríssimas!
    Amei tudo, porém, essa sua absolvição humana do erro é muito comovente.
    Há muito tempo eu também tenho vivido e escrito a defesa na naturalidade boa, saudável, dos erros que a gente vive aprontando na vida. Desde sempre, a pressão de fora é pelo acerto, por buscar e querer o certo, apenas o acerto no certo. Só que, não: isso, nunca nada e ninguém consegue. É um mantra para nós aceitarmos a dominante vontade de causar a dor alheia, que está em tudo, e cresce, cresce, avassaladoramente. Viver bem com nossos erros, eis, a saúde do corpo e da mente.
    E, está bem aí, em suas linhas que é o medo a verdadeira raiz dessa infeliz recusa planetária do erro, medo que aprisiona, contra o prazer que liberta.
    Errar, sempre, numa boa, é condição de felicidade …
    Ou, não?
    Garoeiro

    • responder
      Jacqueline Aisenman
      10 junho 2019 em 11 h 27 min

      Meu bom amigo! Ando aqui pelas bandas de Portugal há algumas semanas, retorno em breve. Aqui tenho refletido muito e, em consequência destas reflexões, revisto tanta coisa! Hora me sinto bem, hora me sinto bem (mal). E assim vejo que é bem o que é a vida. Não há o que dizer a não ser que o aprendizado é o reaprender de todos os dias! E o erro, este temível nome que nos faz tremer a uma só lembrança dele, nada vale quando se percebe que certas lições aprendidas também elas estavam erradas. A gente cai, os conceitos caem, a vida segue. Dói, mas segue. Obrigada por sua tão querida amizade, me sinto abençoada por isto.

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