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ENTREVISTA PARA A REVISTA ESCRITORES DO BRASIL

Entrevista de Jacqueline Aisenman

PERGUNTA: Você publicou poesia ainda morando em Laguna. Já residindo em Genebra criou o site Coracional e veio também o livro com o mesmo nome. Em seguida veio o Varal do Brasil, com sua revista, suas antologias, os novos livros. Muitas realizações, não?

JACQUELINE – Posso dizer que passei minha vida realizando sonhos. O sonho do primeiro livro, confeccionado artesanalmente e lançado junto a amigos, familiares e conhecidos em Laguna, ainda quando lá residia; e outro sonho ao voltar a ter um encontro semelhante mais de vinte anos depois com o lançamento do livro Entre os Morros da Minha Infância, também em Laguna. O livro Coracional foi um marco na minha vida. Editado em 2007, foi uma espécie de “desabafo” na vida e para a vida, de muitas dores, tristezas e sonhos guardados. Com o seu lançamento ocorreu alguns meses antes do falecimento de minha mãe e de meu pai, foi como se, na realidade, tudo estivesse para sempre ali, materializado naquelas 400 páginas… O sonho de continuar escrevendo através de meu blog Coracional e de ter escrito mais de dez livros, contribuiu para ser quem sou hoje.  Com o Varal do Brasil tornei realidade algo que habitava em mim e que eu não sabia ainda ser capaz de realizar: fazer mais emocional a intelectual literatura e unir e divulgar autores de Língua Portuguesa aqui no exterior. Foram sete anos de revista, mais de mil autores editados, cinco participações no Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra (fomos os primeiros brasileiros independentes a montar um estande nesta Feira Internacional) e as seis antologias com os mais diversos autores.  Hoje, com quase 30 anos de Suíça, posso afirmar que me realizei pessoal e profissionalmente.

PERGUNTA: Como você vê iniciativas de grupos como o Grupo Literário A ILHA, que com sua revista, seu portal na internet, sua editora, tem divulgado a literatura de Santa Catarina e do Brasil, publicando novos autores e autores consagrados, há quase quarenta anos?

JACQUELINE – Para mim essas iniciativas são de grande importância e me causam uma imensa alegria vê-las vitoriosas dia após dia. O Grupo Literário A ILHA é um exemplo a ser seguido e mereceria ser ainda mais divulgado e destacado por tudo o que já fez e faz pelo universo literário. Admiro pessoas que se agrupam em torno da literatura e a levam cada vez mais longe, numa união de culturas e continentes. Estas pessoas devem receber nossa gratidão e deveriam ser bem mais valorizadas. Seria muito importante se houvesse meios de apoiar financeiramente estes projetos para que pudessem ter a oportunidade de crescer, divulgar a literatura e, principalmente, criar diversidade e oportunidades num setor onde muitos ainda são esquecidos ou obscurecidos pela falta de meios. Tenho prazer em acompanhar os amigos que seguem divulgando a arte literária e meu desejo é de vê-los alcançando sucesso em suas realizações, iluminando o caminho para que surjam cada vez mais revistas, livros, clubes literários, tertúlias, enfim, eventos que alcancem o fundamental objetivo de mostrar como nossa Língua Portuguesa é bela e a importância de sua divulgação.

PERGUNTA – Por motivos alheios a sua vontade, teve que interromper a atividade excepcional de divulgar a literatura brasileira fora do Brasil, que fazia através da revista Varal do Brasil, das participações no Salão Internacional do Livro de Genebra (Suíça) e das antologias publicadas ao longo de anos profícuos de árduo trabalho. Foi uma semente lançada que está rendendo frutos. Há possibilidade de retomar essas realizações de tanto sucesso?

 JACQUELLINE – O Varal do Brasil foi uma fase importante na minha vida e na vida de muitos que me acompanharam. Foram sete anos de muito trabalho, mas, principalmente, de uma realização ímpar que me deixou a sensação de dever cumprido. Como você cita, o Varal lançou sementes e os frutos são maravilhosos! Me emociono muito com isto. Vejo autores com seus talentos desabrochados, revistas, eventos, uma network literária que se formou e não se desfez mais, apenas cresceu. Há dois anos me retirei da vida literária pública por motivos de saúde. Tive um AVC e, com ele, sequelas que me impedem de levar a mesma vida de antes. Mas não reclamo. Creio que fiz minha parte com todo esforço e carinho possíveis e o sucesso está solto por aí nas vitórias dos que continuam e no meu coração. Então, nesta minha nova vida, aproveito para ler, escrever em meu blog e viver plenamente a vida com a família e os amigos. Mais ainda agora que estou residindo entre a Suíça e Portugal!

PERGUNTA – Quanto a sua produção literária em carreira solo, o que mais a provoca ou inspira? Você continua escrevendo, graças a Deus, portanto poderemos esperar muito mais de sua lavra. Poderia nos contar um pouquinho sobre esse processo de criação e o que está já armazenado?

Não sei exatamente como funcionava meu processo de criação. Mas poderia dizer que como qualidade (ou defeito?) sempre fui compulsiva. Escrevia muitas vezes sem parar durante horas, às vezes até demais! Escrevia na rua, no ônibus, em consultórios médicos, nas pausas do trabalho, em qualquer lugar. Como inspiração poderia falar simplesmente que me inspiro nas pessoas. Gosto de observar as pessoas, fotografá-las com meus olhos, imaginar suas vidas, sentir a energia que emana de seus rostos, seus gestos. Sobre gêneros, nunca tive um preferido, gosto de escrever de tudo. Tive uma fase de histórias curtas (Lata de Conserva, Briga de Foice, O Silêncio Alheio). Escrevi também várias crônicas e inúmeros poemas que podem ser lidos nos livros Coracional, Pintura Ingênua, Sentimentos Confiscados, Entre os Morros da Minha Infância, Poesias nos Bolsos… Tenho até um pequeno livro de frases, Palavras Para o Seu Coração. Hoje escrevo bem menos, até porque dou preferência a várias outras atividades. Não tenho pretensão de editar mais livros, mas continuarei postando no blog Coracional (www.coracional.com) e no Instagram @coracional.

PERGUNTA: Você foi premiada pela Academia Catarinense de Letras pelo seu livro Lata de Conserva. Sei que isso não muda a nossa maneira de escrever, mas o reconhecimento pela obra é importante, não é? E a crítica, influencia o seu fazer literário?

RESPOSTA – Sou reconhecida à Academia Catarinense de Letras pelo prêmio de Melhor Livro de Contos por meu livro Lata de Conserva. Foi uma grande surpresa quando o recebi e com certeza me deixou imensamente feliz. Como escritora, foi como se tivesse recebido um “empurrão” do bem, que me fez escrever com mais vontade ainda. E, claro, senti a responsabilidade. Senti o dever de continuar me entregando da forma mais sincera aos meus leitores. Quanto às críticas de forma geral, todo autor espera que o leitor aprecie o que ele escreveu, embora deva-se compreender que ninguém jamais agradará a todos, pois cada pessoa tem suas preferências. Mas, sou muito agradecida, sempre recebi muitas críticas positivas.  Isto para mim foi um reconhecimento que, bem mais do que qualquer prêmio físico, recebo ao longo dos anos como um profundo afago no coração. E sobre a leitura de críticas sobre livros de outros autores, em geral leio após ter feito minha leitura e ter formado minha própria opinião. Minha maneira de “dialogar” com os livros, de compreendê-los melhor.  

Agradeço a ti Luiz Carlos Amorim, pelo convite para esta entrevista e gostaria de dizer mais uma vez o quanto te admiro e o quanto tenho orgulho de ver um conterrâneo, brasileiro e catarinense, ter uma carreira literária persistente e brilhante. Só posso desejar a ti, como escritor e editor, cada vez mais sucesso em todos os teus projetos.

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