Contos e crônicas

INCERTEZAS

Não me prendo mais às certezas que antes norteavam cada hora de minha vida. Elas me dirigiam, como um diretor dirige um filme, roteiro em mão, pronto, com começo, meio e fim. Atriz única, solitária, monólogo em branco e preto. Algumas cores talvez. Algumas vezes. Não muitas.

Não guardo rancor, guardo no fundo de mim a tristeza que elas me davam. Cortavam minhas asas e sem elas não conseguia voar ao encontro dos sonhos que à noite, no leito silencioso, berçava docemente em pensamentos. As certezas me mantinham distante dos caminhos alternativos, dos atalhos, dos desfiladeiros, dos buracos, dos percalços de percorrer linhas incertas… Elas me mantinham, coleira em punho, sempre na estrada principal, a certa, a menos perigosa, a que tinha placas indicativas e levava a um lugar já programado.

Por conta das certezas adquiridas e infiltradas com afinco em minha mente, deixei de conhecer as fadas, os monstros, os magos e os reinos que guardavam os segredos que cheguei a conhecer na infância e fui abandonando através da memória perdida à medida que ficava cada vez mais certa de tudo.

As certezas fizeram de mim o ser previsível, gado, massa, produto de sociedade ineficiente e material. Pude me manter dentro dessa realidade tanto quanto acreditei que ter certeza de cada detalhe era infinitamente melhor do que me arriscar.

Mas no íntimo, no fundo de meu poço onde muito chorei solitária, eram as incertezas que me alçavam ao topo, me permitiam sair e continuar. Elas me traziam dúvidas sobre mim e sobre o mundo. Me questionavam, duvidavam de mim, de minha capacidade, me contavam do tempo perdido e dos medos felizes de me possuírem como refém.

Um dia, não sei bem quando, me demiti do filme em preto e branco, saí de cena e da estrada principal. Dei-me tempo para sorrir de nada, pensar em nada, querer nada e nada sonhar. Depois, despida das certezas, fui caminhar livre. Foi assim que percebi quantas questões engasgadas me torturavam e o quanto precisava sair pelo mundo em busca das respostas.

As incertezas me soltaram as amarras. Deixei de ser prisioneira e, olhos, mente e boca abertos, pintei muros, paredes, meu corpo. Sorri ao perceber o quanto, pela primeira vez, me sentia normal. Sem as correntes das certezas, abriu-se para mim um universo além do próprio corpo.

Agora sou eu. Ou talvez não seja. Quem sabe serei um dia. Ou não. Que interesse em saber? Que me interesse pode ter saber de antemão meu amanhã?

Depois da noite, do sono, do descanso, o despertar. Talvez aqui, talvez não mais. As incertezas me permitiram, enfim, a escolha do não precisar aceitar tudo e, com isto, poder buscar além de qualquer horizonte.

Incertezas são para os fortes. E agora guardo esta última certeza: eu sou forte.

Photo by Riki Ramdani on Unsplash

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2 comentários

  • responder
    Jeferson Barbosa da Silva
    21 fevereiro 2019 em 0 h 11 min

    Caríssima Amiga,
    No comentário que aqui postei, em 8 de janeiro, fiz menção a um conto seu, publicado no “Varal”, quando você fala do escritor que havia sido abandonado pela inspiração, mas, que resolve sair, porta afora, escapar, ir-se por calçadas e ruas, atrás daquela sua fonte luminosa.
    Pois, nesta belíssima crônica, de hoje, “Incertezas”, constato, feliz, que você está trazendo à prático, aquele voto imaginário do antigo conto seu …
    Ainda bem, para todos nós …
    Garoeiro

    • responder
      Jacqueline Aisenman
      21 fevereiro 2019 em 7 h 00 min

      Meu querido amigo,

      Agradeço tanto sua leitura e seu comentário! Hoje vi que o comentário anterior eu não tinha conseguido ler, muito obrigada por ele também. Me sinto ainda muito lenta, mas aquela vontade de escrever não consegue me abandonar, mesmo quando aqui em casa me dizem, entre risos, que chega, que já escrevi o suficiente para mais de uma vida!
      Abraço grande de sua amiga!

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