Poemas

VOLTAR A VIVER

presta atenção em mim, em meus atos, minhas falas, meus sentidos, meus jeitos e minhas manhas.
presta atenção porque vou acabar te convencendo que preciso voltar a viver.
vou te dizer que não sou mais a mesma, que me afogo dentro de mim
que preciso escrever, escrever, escrever
preciso soltar de mim tudo o que está engasgado e não sai de outra maneira.
presta atenção porque sim, vou acabar te persuadindo a me crer
porque eu mesma vou estar acreditando no que direi…
presta atenção nestes detalhes todos, não me deixa solta
não me permite, por favor, soltar a corda que me prende à realidade…
é nítido que eu pareceria mais feliz, pareceria mais natural, voltaria a ser aquela… aquela distante eu
cheia de risos, de ideias, de loucuras,  que brinca, que ri, que faz crer num outro mundo…
é compreensível querer me ver assim.
é natural que eu também queira me sentir assim.
mas não, não aceite quando eu disser que preciso, que vou morrer se não puder voltar a viver..
porque neste sentido, voltar a viver significa simplesmente matar uma parte de mim
que precisa também da realidade…
assassinar a parte tranquila que também é verdadeira, que ama a paz e enxerga o céu sem que os pés deixem o chão…
voltar a viver, voltar a escrever, voltar a ser…
voltar a voar, pés no ar, cabeça no ar… a terra firme a cada dia mais longínqua…
presta atenção porque é assim que eu me afogo…
por enquanto eu mesma ainda consigo nadar de volta
por enquanto eu mesma ainda consigo voltar à terra…
mas haverá um dia onde estarei dentro de um grande balão, indo em direção ao firmamento…
e de lá talvez não consiga mais sequer enxergar a terra.
então me ajude: entenda que preciso confinar esta parte de mim…
preciso que ela fique trancafiada em minha cabeça…
e mesmo se eu gritar, chorar, disser cem vezes que a morte está vindo
porque não consigo escrever…
me mostre este poema..
e me fale que toda poesia já sou eu mesma
a poesia é tudo o que já coloquei em letras
em frases
em versos…
nas páginas virtuais e nos livros…
me mostre este poema
e diga que pode me amar assim.
isto bastará para que eu volte a viver.

 

Photo by Sharon McCutcheon on Unsplash

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2 comentários

  • responder
    Garoeiro
    24 agosto 2018 em 23 h 36 min

    Caríssima Jacqueline,
    Grande poema!
    Voragem vertiginosa!
    Desespero bem escrito de boa poeta.
    Ainda bem que há, no final, reconhecimento da saída ideal: poetando, o poeta é poesia!
    Abraço,
    Garoeiro

    • responder
      Jacqueline Aisenman
      26 agosto 2018 em 9 h 48 min

      Muito obrigada meu amigo! Fico muito feliz com sua leitura e seu comentário. Receba um carinhoso abraço de sua sempre amiga, Jacqueline

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