Contos e crônicas

O PÁSSARO

Todos os dias ouço o pássaro que canta. Não fosse eu morar num setor bastante urbanizado da cidade, as árvores atrás do condomínio me bastariam para compreender o canto do pássaro. Mas ele, soube ser um sabiá,  (será ela? serão eles ou elas?) canta e canta tão lindo e todas as manhãs, tardes e mesmo em meio à noite… que me faz pensar se não está somente cantando sua saudade, a distância que sente dos seus, a vontade de rever seu antigo mundo de florestas sem edifícios ainda mais altos do que elas. Seu dobrado repercute pelo céus abertos, claros ou enuviados, voltando até mim ainda mais leve, descompromissado de qualquer canção. Sua canção é única, própria a todos os pássaros que, livres ou presos, têm o dom, este encantamento sublime de preencher o espaço com música. De dentro das minhas paredes e das minhas dores, me resta ouvi-lo, apreciando cada nota de seus assobios tão sonoros e pensar que ele canta de feliz, que não está engaiolado, nem ferido, nem só. Deixo estas coisas para nós, os humanos dos prédios grandes e cheios, de onde apenas se vislumbram as árvores coladas ao chão.

 

Imagem by Linh Pham on Unsplash

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