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NA MANHÃ QUE CHEGA…

Na manhã que longe chega meus olhos já estão. Penso estar também, mas creio que na verdade não estou, nunca estive. O corpo se movimenta, anda pela casa, age como se fosse completamente independente de mim mesma, esta essência que descubro pouco a pouco. É noite ainda, há pássaros que cantam e há um sono abreviado rondando a mente. Nela, a mente, a ansiedade não se dissolve. Como um caroço numa fruta fresca, a ansiedade se espalha pela polpa e toma conta do que pensa lhe pertencer. Ajo, reajo, abro portas, fecho armários, faço café e invento. Invento. Crio coisas para imaginar ainda mais. Minha mente anseia pela agitação que não conhece mais. Então cria, cria, espia o mundo e faz de conta. Sou um pedaço de mim, mas aqui, bem aqui, nesta manhã que chega, vago como se fosse inteira. Até que o corpo ceda ao cansaço. Até que a mente adormeça, até ser possível largar as amarras, fechar os olhos e adormecer. Então, só então, me estabeleço no universo profundamente tão almejado: o da alma.

 

Imagem by Vlad Gedroics on Unsplash

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