Contos e crônicas

FALANDO DE JUSTIÇA: É PRECISO ENTENDER DAS LEIS PARA COMPREENDER A DESIGUALDADE?

Justiça, de acordo com o dicionário é “qualidade do que está em conformidade com o que é direito; maneira de perceber, avaliar o que é direito, justo.” O princípio mesmo desta definição é bem simples, qualquer leigo, como eu, consegue entender, por exemplo, que a base da justiça é a igualdade de direitos para todos.
Sempre soubemos (embora seja bem difícil de admitir) que as leis no Brasil nunca serviram com igualdade a todos os cidadãos. Casos de abuso de poder, de desleixo voluntário com processos e outros ainda são relatados com muita frequência. Ouve-se de amigos, lê-se aqui e lá. Além da desigualdade notória, a justiça no Brasil é bem conhecida por sua morosidade. O acúmulo de processos engavetados, esquecidos ou propositalmente abandonados são parte de uma realidade de vida à qual o povo brasileiro já se habituou.
Como citei anteriormente numa crônica e volto a citar, um dos exemplos mais recentes e chocantes da falta de justiça igual para todos, foi o caso da policial que parou um juiz numa blitz e acabou condenada porque “não sabia com quem estava falando”. O cidadão estava errado, mas assim mesmo processou a policial e ganhou. Chocante, trágico e facilmente esquecível. Assim é.
Nos últimos dias tenho lido muitos casos assim e piores. Profissionais da justiça agindo como paladinos, aspirantes da fama, fanáticos por holofotes. Andam gritando justiça e brandindo espadas de leis que são desconhecidas até para quem estudou as ditas. São advogados, promotores, juízes, fazendo justiça com as próprias mãos e com a cabeça tomada pelo desejo de cinco minutos de fama.
Podemos não estar de acordo com a situação do país, com atitudes tomadas pelo governo e pela tamanha cara de pau dos que têm roubado o país há décadas e continuam no poder através do voto popular. Mas convenhamos que o judiciário tem se comportado de maneira bastante bizarra ultimamente, usando dois pesos e duas medidas, abrindo os olhos para uns casos e fechando gloriosamente os olhos para outros.
Grampearam telefones. Uma parte do povo festejou o grampo, a divulgação de conversas e tudo mais. Bem, será que este mesmo pessoal que vem festejando isto se dá conta que o precedente agora está aberto? Você que me lê, se dá conta que amanhã, se precisar de um advogado sua conversa com ele poderá ser gravada à revelia? Se não entendeu ainda a gravidade da situação ou não se importa com ela, é porque provavelmente nunca precisou da justiça para si mesmo ou para alguém de sua família.
Enquanto isto, vários políticos notoriamente corruptos, carregando nas costas provas cabais de seus crimes contra o povo, continuam inexplicavelmente intocados e intocáveis. Enquanto a justiça mira apenas um partido político, que não está isento da corrupção, todos os outros partidos, tão corruptos ou ainda mais, se articulam, criam artimanhas e fazem mesmo até parte de “comissões de justiça”.
E a dita justiça, a que deveria ser igual para todos, segue sua jornada com apenas um olho aberto e usando os pesos de sua conformidade para tratar a corrupção.
Não, eu não estou tratando todos os profissionais da justiça de incompetentes e corruptos. Nem estou chamando todos de prepotentes e cegos. Mas sim, estou dizendo que a justiça no Brasil está capenga. Precisando de uma boa revisão de honestidade. Porque quando profissionais apoiam seus pares mesmo na desigualdade e na injustiça, há um problema muito sério que não pode ser ignorado.
Hoje o povo celebra os juízes que se dizem donos da verdade e defensores das leis e com elas passam por cima de tudo e de todos com uma rapidez de ação que dá até prazer de ver. E amanhã, quando for o cidadão comum que precisar da justiça? Agirá ela com a mesma rapidez e vontade? Agirá ela em prol do cidadão e sem favoritismo?
Daqui da minha cadeira e dentro de todas as limitações que minha falta de conhecimento das leis me impõe, fico apenas observando. Com medo do rumo que a justiça está tomando no Brasil e com medo dos que defendem a todo custo seus métodos e objetivos bastante discutíveis.
Há, com certeza, um problema importante aí. Mas talvez a cegueira pela vontade de punir um ou dois esteja tirando das pessoas a visão global que permite enxergar os tantos culpados que estão não só livres, mas se aproveitando do momento em benefício próprio.
Vamos torcer para que a justiça use os mesmos pesos e medidas para todos, afastando o fantasma da desigualdade e enfrentando com galhardia todos os envolvidos em corrupção sem exceção. Nosso país precisa ser limpo, limpemos. Mas não jogando algumas sujeiras inconvenientes para debaixo do tapete e mostrando outras como se fossem as únicas da casa.

 

(Texto de março de 2016 republicado por motivos técnicos)

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