Contos e crônicas

CORAGEM

Postei agora há pouco aquela foto. Ninguém notou o que ela realmente significa. Acharam bela, clicaram mais de mil vezes sobre ela mostrando o quanto a amaram. Ou gostaram. Tanto faz. O que importa (ou não!) é que não viram a face por inteiro, não perceberam a fealdade sob a camada colorida. Sorriram comigo, comentaram a beleza da paisagem por trás de minha silhueta, se encantaram com detalhes que nem eu mesma tinha reparado (Nem sei se estes detalhes já estavam ali antes dos filtros aplicados…. Os filtros sempre ajudam a dar ênfase ao que desejamos mostrar… Ou esconder ainda mais o indesejado…).

Fiquei imaginando sua reação quando visse a foto. Você com certeza saberia exatamente o que significaria aquela postagem. Você saberia identificar o momento e poderia entender as implicações subentendidas. Nada do que faço é aleatório, você sabe disto. Os outros não sabem. Por isto comentam, curtem, compartilham…. Levam-me para lugares que eu nunca imaginei estar. Ou talvez sim. Você sabe que, no fundo, sempre fui calculista. O que os outros viam em mim como um ar belo e distraído só você sempre soube que era frieza mesmo.

Na foto o que mais chama a atenção é meu sorriso. Poucos repararam nas manchas porque as cores se misturam muito, muito bem. Acho que o filtro se chamada “artístico”. Ou algo assim. Usei um aplicativo simples, que não me pedia nada além das minhas poucas forças e recursos naquele exato instante. Todos verão para sempre o meu sorriso nesta última foto postada. E quando souberam que foi a última, pensarão no quanto fui bela e feliz. Olharão novamente quando souberem de tudo e ainda assim pensarão no quanto fui bela e feliz. Mas você sentirá o peso. Entenderá que falhou.

Na hora que aparecerá sob a foto postada, estará selado o momento em que desmascaro a dor infinita que reverberou sobre minha vida inteira. Retiro o véu que ocultava a tristeza e o sofrimento, tão intenso sofrimento, ponto por ponto bordado com ferro quente em meu coração. Olhe bem. Olhe e verá como incrementei a luz que banha meu corpo na foto. Aumentei propositalmente. Fiz questão de um corpo iluminado, já que alma, negra de um martírio não escolhido, esqueceu-se dentro de mim em sombras. Olhe e entenderá que havia sim frialdade em meus olhos. É que depois de tanto tempo ao seu lado, compreendi que seus gestos de amor, mais do que marcas em meu corpo, manchavam minha alma.

A foto ficará lá para a posteridade. Ninguém apagará porque não haverá porquê. Há beleza na morte. Principalmente quando ela não é comunicada, apenas anunciada num silêncio que poucos poderão perceber. O sangue está tão belo na foto! Escorre lento como num filtro aplicado, uma espécie de moldura de violência subentendida. Mas desta vez você não fez nada. Eu fiz. E fiz tão sutilmente que quando você se der conta, estarão batendo à sua porta para buscá-lo. Sim, eu tive tempo de avisar que foi você. Tive tempo de contar que você é um criminoso. Você agora deve estar tremendo, deve estar finalmente compreendendo o significado da foto postada. Você deve estar horrorizado, pensando “meu deus, o que ela fez…”… Sim, eu fiz.

Eu me matei. Me fotografei morrendo. Morrendo e sorrindo. Sorrindo e avisando que você me matou. Matou e me fotografou morrendo. Morrendo e sorrindo…. Sua covardia me deu coragem.

 

Imagem by Vladmir

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1 Comentário

  • responder
    Zuleida
    20 maio 2017 em 2 h 34 min

    Forte!

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