Contos e crônicas

QUANDO O ADEUS SERÁ MAIS DO QUE UM SINAL

Um dia em nossa vida haverá um adeus difícil de ser assimilado, não apenas porque ele nos separará de pessoas que foram marcantes em nossa vida, de forma boa ou nem tão boa assim, mas também porque será o instante em que, verdadeiramente, nós nos veremos adultos.

O dia em que nos despedimos (ou não) de forma definitiva de nossos pais, será o dia em que teremos nosso cordão umbilical cortado verdadeiramente. Será quando nos veremos como naqueles filmes onde o astronauta sai da nave para fazer um conserto e acaba tendo o fio que o segura rompido de alguma forma… E lá se vai então o astronauta, desgarrado pelo espaço sideral, em meio às estrelas da imensidão.

Um “tchau” na porta sem olhar para trás quando íamos para a escola não nos permitia ver os olhos que nos seguiam preocupados. Um “até breve” no portão antes de seguir para o aeroporto e enfrentar uma longa viagem e mais a espera de meses (ou anos) para retornar ao seio familiar, não era longo o suficiente para nos permitir ver as lágrimas de saudade antecipada, de dor nunca anunciada.

Mas todos os tchaus, até breves, até mais, adeuses… Todos eles eram dados com a certeza de que a volta, em minutos, horas, meses, anos… Todos seriam recompensados com o reencontro. Todos seriam esquecidos com os abraços e sorrisos da volta. A certeza da juventude é que a eternidade existe!

Até que não tenha mais. Não a volta, pois esta sempre existirá. Mas quem esteja lá, na volta, para nos esperar da escola, da viagem ou da ida ao mercado.

A mãe ou o pai que segurou nossa mão quando pequenos; a voz que nos puniu para que soubéssemos diferenciar o certo do errado. A presença, simplesmente a silenciosa presença, que era suficiente para nos dar a segurança que jurávamos não precisar.

Suas memórias escreveram nossa memória, lembrando com alegria nossa infância, rindo de nossos tropeços tolos e lamentando nossas perdas e tristezas. Um pai ou uma mãe, mesmo iletrados, mesmo sem o conhecimento do mundo, são poços de uma riqueza imaterial que se chama unidade. Dentro desta unidade, nos encontramos nós, com eles mesmos, com nossos ancestrais, com nossa descendência.

Todos os dias da vida recebemos sinais de que um dia eles não estarão mais conosco. O tempo vai passando, o tempo vai diminuindo, o tempo vai mudando. Cabelos brancos, rugas marcadas, uma maior compreensão da vida e do mundo. De repente eles não são mais tempestuosos ou festeiros; de repente eles estão mais calados ou mais inclinados a reflexões; de repente eles não respondem mais às nossas provocações sem razão ou sorriem diante de palavras que dizemos sob a sombra de um ego ainda maior do que nós mesmos. Tantos sinais e, ainda assim, temos a certeza que viverão para sempre.

Eles que, em nosso coração, sempre serão os nossos primeiros filhos, aqueles com os quais tivemos que ter “paciência” para tanta coisa! E, ao severamente julgar estes “filhos”, esquecemos das tolices que os fizeram nossos pais: as noites de insônia diante de nossas pequenas e grandes enfermidades; as noites insones e inconfessas enquanto os amigos e as festas nos chamavam! Todos os “puxões de orelha” cheios de preocupação, os avisos sobre amigos que nem eram amigos; os conselhos para estudar e ser “alguém” na vida; os carinhos, sorrisos e palavras de apoio em momentos difíceis… As horas de trabalho sem fim na rotina do dia que os trazia para casa cansados, mas com o dinheiro necessário para viver.

Um até breve nunca se anunciará um adeus. E mesmo um verdadeiro adeus nunca será o adeus que precisaríamos, aquele suficientemente longo e que tire de nós todas as culpas e remorsos e que esvazie de nós todos os rancores e medos. Um dia a partida se fará e talvez nem se tenha tempo para formalizar um adeus.

Nos tempos que se seguirão, astronautas soltos no ventre do universo, quem sabe o que nos reservará o adeus que aconteceu ou o adeus que nunca foi possível ser dado?

Seremos pela primeira vez adultos de verdade, órfãos do bom ou do ruim.

Quando o adeus for mais que um sinal, quando ele for realidade, lágrima alguma poderá lavar o passado. Mas talvez, se tivermos tido a consciência de ter sido filhos, antes de pais, para nossos próprios pais, o sinal terá sido claro e a visão da despedida não nos deixará sem chão.

Filhos e pais viverão assim perdoados de todas as falhas, que elas com certeza terão sido mais passageiras do que as folhas de outono. E viverão pela eternidade na memória a lembrar e ser lembrados com carinho, pois o que conta mesmo são os laços. Estes mesmos laços que, criados ao nascer, jamais os deixarão separados uns dos outros haja o que houver…

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2 comentários

  • responder
    Isabel Vargas
    23 novembro 2016 em 19 h 59 min

    Muito sábio, verdadeiro..Acima de tudo comovente.Vejo tua alma.

  • responder
    Eliana Reinaldo
    23 novembro 2016 em 10 h 34 min

    Talvez tenha sido a coisa mais linda que escreveste. Que resumo de vida extraordinário!!!
    Como és linda Jacqueline!
    Um abraço bemmmmmmmmm apertadinho.

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