Poemas

EU MORRI

Não anunciem, não façam silêncio, não parem de trabalhar…
Não digam “que pena”, não digam “era boa”, não falem amenidades…
Não façam homenagens, não comprem flores, não venham olhar o corpo…
Não perguntem “por que?”, não perguntem “como foi?”, esqueçam as questões…
Há que ser rápida a partida, sem nenhuma despedida, sem um só: “querida”!
A terra não agasalhará meu corpo, já ao fogo foi doado em vida!
Não pensem em adeus, não tenham em mente que eu valia a pena…
Não pensem no que deixarei de fazer, pensem no peso do que deixei de ser…
Não pensem que parto sem culpas, elas são minha bagagem para o eterno…
Não imaginem que o esquecimento será meu remédio, a dor de lembrar o será…
Toda lágrima virá para aliviar, sorrir fará mais bem que chorar, ver-se-á o olhar!
Bastará pensar no passado, ele por si só será o que preciso para me enterrar!
Não há tristeza maior do que uma vida envelopada em erros sem perdão…
Não há dor maior do que uma vida onde se saiba ser o vilão dos fios da história…
Não há carga maior a levar-se na vida que a coragem de um arrependimento…
Qualquer música será torta, qualquer língua que falar soará morta… feche-se a porta!
Esconder-me-ei no além, onde nem com vida e nem com morte há que se importe!
Permitam-me partir em silêncio pelo que pude nesta vida, e eu quis tanto!, amar!
Sintam-se felizes por mim, por vocês, pela vida que agora mais leve seguirá…
Seguirá seu ciclo normalmente, as primaveras, os verões, outonos e invernos…
Um dia após o outro sem minha figura para apontar o que se desejaria esquecer…
Que as pequenas gotas sejam levadas por lenços de papel e estes jogados fora…
Com a mesma impiedade que serão jogadas minhas cinzas no meio de qualquer rua…
Que qualquer semblante de dor seja arrancado do peito com risadas de alegria
A mesma que fará medos e outras coisas dolorosas se apagarem sem mais…
Eu morri e o único anúncio a ser feito é interior e deverá rasgar em pedaços…
A fraude que fui em cada personagem vivido e em cada interpretação…
Fechem a cena com a cortina mais velha e puída, abandonem o teatro às traças…
Que uma nova peça começará lá fora e nela há esperança!

 

Imagem by  la-esmeralda (Thank you very much, the picture is so beautiful!)

Você pode gostar também de

1 Comentário

  • responder
    marna gentile
    9 novembro 2016 em 18 h 58 min

    Sou admiradora de suas produções poéticas. Sensibilidade a mil! Bj. Jacqueline.

  • deixe uma resposta