Contos e crônicas

ENTRE A VÍRGULA E O PONTO FINAL

Pode ser que haja entre a primeira vírgula e o ponto final muitas coisas que deem sentido à frase. Palavras (inundadas de exclamações ou interrogações subjetivas); letras (bêbadas, trocadas, angustiadas, sentidas, extasiadas…); outros pontos (perdidos, desencontrados, inesperados, forçados, inativos ou ineficientes). Cabe tanto numa frase quanto o pensamento tenha a dizer.
Palavras, expressões, café expresso para viagem por favor! Frases de efeito, um perfeito esquema para fugir. Palavras, unicamente palavras. Diminuídas, comprimidas, subestimadas, confessadas, abusadas, exploradas, enterradas, mortas. Somadas, incrustradas, avantajadas, engrandecidas, empodeiradas, conspiradoras, superiores, santificadas. Divididas, fragilizadas, abreviadas, fatalistas, perdidas, esquecidas, angustiadas. Multiplicadas, espalhadas, corajosas, obreiras, sonhadoras, perigosas…
Na verdade, mesmo numa frase palavras não serão nunca apenas palavras. E suas letras brincarão diante de nossos olhos como as nuvens, formando figuras de algodão no azul do céu. Mais que a ilusão das ilustrações, o embaralhamento dos olhos. O incômodo diante do que não se entende perfeitamente. Porque nada é perfeito e a perfeição ela mesma é apenas mais uma palavra.
– Corte!
– Corte?
– Corte…
– Corte.
– Um corte?
– Recorte!
– E no corte…
– Era um corte.
– Corte esta cena!
– Por que você quer o corte?
– O corte não me agrada…
– Apenas corte.
– Me fez tão mal quando acabou, senti o coração cortado!
– Sentiu a dor do corte?
– Sim, senti até o sangue escorrer do corte profundo…
– Talvez houvesse mesmo um corte.
– Cortesia sua estar agora ao meu lado!
– Imagine, com um corte destes na vida?
– Mas poderia ser diferente, cortes acontecem o tempo todo…
– Só que entre amigos cortes têm significado.
– Corta!
– Corto?
– Corta…
– Cortei.

Imagem by Joshua Wilson

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