Contos e crônicas

A ESTRADA QUE LEVA AO FIM

E o começo foi o fim. O fim do começo que toda estrada conhece.

 

Não importa o quanto eu tenha me divertido na juventude e nem importa o quanto tenha aprendido com os prazeres e desprazeres da vida. Pouco importa também tudo o que foi visto, utilizado, sentido, provado, conquistado, sido, realizado…. Que importância dar a velhas fotografias que só mostram sorrisos de outrora por coisas que não pesam nada na balança impiedosa do viver?

Um dia a gente chega lá: no começo da estrada que leva ao fim. Quando a gente se olha e finalmente vê o que nunca quis ver, ou seja, que o tempo passou para a gente também. Passou e deixou marcas. E toda poeira que se costumava jogar para baixo do tapete começa a circular no ar, mostrando que não, a gente nunca estará livre de pagar à vida o pedágio de sua estrada, seja ela longa ou curta; seja ela bela ou não. Quando olhamos o reflexo no vidro da janela e ele nos diz mais sobre nós mesmos do que o próprio espelho. Nossas idas e vindas não significam mais coisa alguma. Todas as viagens transportadas para o limbo junto com lembranças tensas diante de uma realidade opressora.

Lá fora as pessoas caminham com guarda-chuvas. Elas estão lá, as pessoas, cinzas como o dia. Iguais. Não se diferenciam nem mesmo pelas roupas ou pelo horário de trabalho. A manhã as recebe nas ruas e lhes entrega aos escritórios, usinas, meios de transportes e tantos outros locais onde permanecerão oficiando como boas formigas trabalhadeiras até o dia acabar. A noite já se pronunciando receberá as pessoas de volta e as levará até suas respectivas casas, onde beijarão seus pares, prepararão os jantares, olharão as atualidades, se espantarão mais uma vez com as horas, já tão tardias, e finalmente dormirão sem mais. Sem sonhos com exceção daqueles que oferecem a redenção através de prêmios absurdamente milionários e distantes. Todas elas, as formigas, são úteis. E a vida ama tudo o que é útil, concreto. A vida não imita a arte: a vida detesta a arte!

Enquanto eu passava pelos caminhos dançando na chuva e rindo do mundo, tal qual a cigarra das fábulas, todas as formigas se estabeleciam concretamente na vida. Todas elas que me olham e sonham em ter e ser agora no fim da estrada, um mínimo do que fui a vida inteira. E eu, solidária e solitária, recém-saída de uma rota de incessantes perigos em meio à minha vida de falésias e montanhas, onde nunca houve uma estrada sequer que tivesse um quilômetro igual…. Eu, sem entender direito como, de repente mudei de estrada. Saí das curvas sinuosas e incertas e segui o cruzamento que levava à estrada principal, esta que evitei até este momento.

Olho as formigas maravilhada! Elas têm moradas em seus formigueiros! Elas seguem o movimento da folia coletiva e dançam conforme a música! Inconformista que sempre fui, espantam-me agora tais movimentos e tal comportamento. Mas é um espanto triste, pois nesta nova vida o que quero é ser como são estas criaturas bem adaptadas que sabem contar em números o tempo e calcular dele as etapas da estrada. Ao invés de nelas plantar flores como fiz eu, elas plantam sementes de batatas, verdejam o pasto e dão de comer aos bois que eu acariciava a cada passagem.

Parada, estupefata ainda, compreendo que a estrada que agora tomei, esta estrada dos comuns, onde todos se encontram um dia ou outro, é simplesmente a estrada que leva ao fim. Quando se pensa na casa, no chão, na hora de parar, de descansar, de partir. A estrada dos comuns, ela leva ao fim. Engraçado, a outra também levava. Mas não se percebia…. Nela percorri tanto tempo que agora parece que tenho que andar acelerando; tenho que correr o tempo todo para alcançar o que nem sei ainda o que é. Há horas marcadas, horário para tudo e comparações insanas. O alto preço do viver, já elevado ao máximo, parece aumentar a cada momento um pouco mais. Há um desgaste constante em tentar conseguir ter o que eu nunca quis. Para pertencer é preciso ser igual. Para ser igual é preciso ter igual.

A estrada que leva ao fim não tem fotos felizes para recordação. Apenas as cobranças dos próximos que não perdoam e nunca perdoarão o fato de não termos sido formigas desde o início. Cigarras precisam ser punidas por ter ousado a felicidade. Pouco importa os sofrimentos, as feridas, as cicatrizes escondidas sob o manto da alegria. O sofrimento de uma cigarra jamais poderá ser nivelado ao de uma formiga. E será um crime, uma grande falta de educação (ou de pudor) imaginar que a vida de um inseto que cantou sob sol e chuva possa ser comparada à vida dos demais que se faziam úteis diante da vida. Não há piedade ou perdão para cigarras em plena reconversão.

Já que estou aqui, seguirei. Mesmo se eu desejasse retornar seria tarde demais. Se eu olhar bem, o cruzamento que me trouxe aqui nem existe mais. Minha velha estrada fundiu-se com o horizonte, perdeu-se no espaço, morreu no infinito. Sobrou dela apenas o que trouxe dentro de mim. E dentro de mim algo que se parece com uma bomba-relógio se prepara para explodir o que restar.

Meu corpo adoeceu, meus sonhos se esmoreceram, meus passos ficaram pesados.

Sim, eu envelheci. Todos os que vejo passar diante de mim afirmam ter amadurecido. Dizem estar prontos. Prontos para a caminhada final. Eu, eu envelheci Pedaços da minha felicidade caem enquanto caminho. Em breve não haverá mais nenhum vestígio dela dentro de mim. Tentando querer as mesmas coisas que os outros, perdi também tudo o que havia conquistado, descobrindo que a dor do vazio é algo bem maior quando não se tem mais para onde ir além da estrada que leva ao fim.

Resta-me a lágrima que enxugo disfarçadamente, entre um sorriso e outro, enquanto afirmo minha alegria em finalmente estar caminhando pela estrada que leva ao fim.

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