Contos e crônicas

SONHO ADORMECIDO

Seus dias eram feitos de sono e tristeza. Tinha saudades de casa. Seu cheiro era de suor e desodorante misturado com fritura. Passava o dia dormindo, jogado na cama que ficava, solitária, num quarto de fundos alugado. À noite ia trabalhar no restaurante do Seu Giancarlo, ajudando a preparar a comida. Não era ajudante de cozinha. Era ajudante do ajudante. Mas pelo menos recebia o seu dinheirinho semanal e com ele podia economizar. Economizava pensando no sonho que tinha no dia em que havia saído de casa, deixando uma mãe cansada e sem choro, parada na porta e sem um aceno. O sonho continuara sonho. E parecia tão distante, parecia que tinha corrido para longe dele com o tempo. Por isto, nos seus momentos de folga durante o dia, ele dormia. Tentando reencontrar seu sonho. Quando acordava, já quase na hora de sair novamente, constatava o peso da realidade: não tinha tomado banho, não tinha se alimentado, o sonho não tinha aparecido. Levantava de qualquer jeito, esticava os braços, pegava a roupa jogada no chão e vestia. E saía. Seu Giancarlo tinha chamado a atenção dele há alguns dias, não lembrava mais quando: menino, vá tomar banho, vá se barbear. Se continuar assim vou ter que botar você na rua! Tá deprimido é? Ele não sabia, o seu Giancarlo, não tinha a menor ideia do tamanho do sonho dele. Ninguém tinha. Nem o pai, o desgraçado que largara a família para criar mais filhos com outra. Nem os irmãos que tinham ficado em casa com a mãe indiferente. Ninguém. E com a rapidez que passava o tempo, daqui a pouco nem ele mesmo saberia mais. Iria esquecer. Apagar assim como a luz que nunca acendia no seu quarto dos fundos. Talvez o seu Giancarlo percebesse sua ausência. Quem sabe…

 

Imagem by PDPics

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