Contos e crônicas

QUANDO FOI ONTEM?

Ela poderia ter se apaixonado. Ou talvez tivesse mesmo se apaixonado. Não lembrava. Estava com a cabeça fervendo, a viagem tinha sido tudo, menos calma ou repousante.
Enquanto olhava as malas que rolavam pela esteira pensava nele. O sorriso meio maroto, a voz baixa, brincando com ela como se ela fosse tudo o que sempre imaginara que alguém pudesse ver nela. Quando percebeu estava sorrindo para a esteira, as malas volteando e ela quase esquecida.
Tentou voltar sua atenção para o ali e agora, mas ele invadiu novamente seus pensamentos. Agora eram suas mãos que acariciavam seu rosto, seus lábios (eram quentes, tão quentes quanto ela lembrava?) tocando de leve os seus até se transformarem num turbilhão tão intenso que mesmo que desejasse nada mais poderia fazer. Tinha caído catarata abaixo, em queda livre.
Malas, malas! Malas de todas as cores e tamanhos desfilavam, agora menos do que antes ela tinha a impressão. E ele continuava ali, seus olhos nos dela, suas mãos segurando as dela, seu corpo completamente colado ao dela. Foi ontem. E quando tinha sido ontem?
Ela tremia como tremera no instante em que ele, sem falar, apenas a levara com ele. As malas, já escassas, estavam paradas sobre a esteira parada. De longe uma voz falava alguma coisa, misturava-se com a voz dele pedindo: Fica!
Sentiu uma mão no ombro. Votou-se, sorriu para ele.
– Estas malas são suas?
Mas ele não estava lá.

 

Imagem by David Ruiz

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