Contos e crônicas

FODA-SE O LEITOR. OU NÃO. GOSTO É GOSTO…

Uma reflexão sobre o desabafo de um escritor na FLIP e outras divagações

 

Recebi hoje uma mensagem da colega escritora e editora gaúcha Sandra Veroneze, com um podcast realizado por ela sobre um assunto que tinha virado a pauta do dia na literatura: O escritor Bernardo Carvalho, no meio de um debate na FLIP agora em julho, largou uma bomba ao dizer que o leitor não lhe interessava e que o que ele queria era fazer a literatura dele e ponto final. Completou com a expressão que caiu no ouvido do geral: “O leitor que se foda”. O sulfuroso debate tinha como tema “Literatura hoje: por quê, para quê e para quem?” e o papo rolava entre Bernardo e o escritor Benjamin Moser quando aconteceu o fato e tais palavras saíram para a eternidade (mesmo que dois ou três dias) da internet.
Confesso que andei meio desligada e até ouvir o podcast de Sandra, nada sabia do acontecido. Mas, muito surpresa que fiquei, fui às páginas dos jornais buscar informações que me esclarecessem como um escritor poderia dizer o que disse publicamente. E também porque a verdade é que tudo na vida tem dois lados e isto não é novidade. Novidade mesmo é a gente enxergar os dois lados e não apenas um que se escolha ver. Fui procurar saber do exaltado Bernardo e do outro escritor, que descobri comedido, Benjamin Moser.
Vamos começar por um dos lados: Sim, Bernardo Carvalho tem razão. Que se foda o leitor! Ele, como escritor, tem todo o direito de fazer a literatura dele, de manter um nível literário que atualmente acha difícil encontrar. Ele não quer escrever livros de autoajuda, de vampiros adolescentes, de senhoras masoquistas ou de pensamentos abençoados. Ele sabe que não é um fenômeno do Youtube e nem será o alquimista Paulo Coelho. E mesmo que sejam estes os que consigam captar a atenção de uma grande porcentagem dos leitores, ele gostaria de permanecer escrevendo o que quer, no seu estilo. Ainda que não leve à sua editora milhares de seguidores de redes sociais e nem abarrote livrarias graças à exposição de sua vida pessoal. Não desmerecendo nenhum gênero e nenhum estilo, porque graças aos céus há gosto e gosto, eu dou razão ao autor da frase cáustica.
Eu também quero escrever do meu jeito, escrever o que gosto e não pretendo mudar apenas para agradar o freguês. Mas fico calada. Ao invés de falar, escrevo. Não diria o que ele disse, ou pelo menos não daquele jeito, afinal ele não estava numa roda íntima de amigos. Estava debatendo um assunto publicamente numa feira literária internacional. Aí neste instante a gente olha os dois lados da questão e tira dele esta razão imediatamente. Um escritor não deve ofender aquele de quem ele depende. Ele generalizou. E por generalizar acabou incluindo no “leitor que se foda” os seus leitores, os seus admiradores, aqueles que compram sua produção. Falhou.
Como num velho LP (velho disco dos velhos tempos…), eu mudo de lado e vou em busca de que raio de leitor é este que só quer ler o que não lhe “dificulte” a vida. Quero conhecer o leitor que não quer nada diferente, novo ou não, daquilo que “se acostumou” a ler ou é “orientado” por um segmento para fazê-lo. Bem, não preciso fazer esforço: faço há sete anos uma revista literária digital, convivo com leitores e escritores diariamente. E convivi com muitos leitores do tipo que descrevo acima durante os quatro anos que montei estande no Salão do Livro de Genebra.
Para um leitor que vinha buscar um título de um autor reconhecido, ou vinha aberto para conhecer os autores que apresentávamos, poderia enumerar dez que olhavam os livros com indiferença (ou até desprezo). Tive o prazer de conhecer o leitor que nos visitava e ficava feliz em comprar livros de novos nomes da literatura lusófona. Aquele que sempre estará pronto para “garimpar” pepitas entre as pedras. E tive o desprazer de cruzar com uma quantidade enorme de pessoas que vinham ao estande e perguntavam: “onde estão as coxinhas?” ou “por que não tem caipirinha?”. Entre estas e outras muitas pérolas, tenho hoje a comprovação do que já sabia há muito tempo, ou seja, que uma parte considerável do público que vinha ao estande era público sim, mas não era um público leitor. Muitos procuravam somente o oba-oba brasileiro, sem encontrar, dando de cara com os livros e sem bandeiras ou enfeites coloridos. Afinal, eu passei muito tempo da minha vida tentando distanciar o tal oba-oba da literatura brasileira, principalmente aqui no exterior, onde guardam ainda uma imagem muito ruim do nosso povo, associando o que fazemos à falta de seriedade e, literalmente, bagunça.
Tem livro de vampiro? Tem livro da religião tal? Ah, este tipo de coisa eu não leio não. A festa vai ser aqui mesmo ou vocês vão para outro lugar? Essa gente aí escreve livro é? Vivem disto? Ouvia cada coisa… Ficaria aqui relembrando (triste!) o que vi e ouvi. Mas melhor não. Finalizo este lado da questão dizendo que há um outro lado ainda: Conhecendo estes dois tipos de leitor, ou seja, o que realmente lê e busca alternativas para suas leituras; e aquele que, limitado ou realmente sem muita visão, permanece no seu quadrado, preferindo manter distância da boa literatura, concluo que não há como eximir as pessoas da culpa pela ignorância que habita tantos.
Falta o hábito da leitura? Falta. Mas falta também uma educação que, apesar de não ser favorecida por muitos fatores, também não começa na própria casa. Falta abertura de espírito e isto, infelizmente, é algo que só a gente faz por si mesmo.
Minha experiência literária me proporciona e proporcionou conhecer escritores e leitores marcantes, pessoas que não apenas acrescentaram à minha vida, mas chegaram a iluminá-la. Porém, certas situações e pessoas na minha vida de editora e nestes mesmos inesquecíveis encontros literários, me dariam vontade de mais ou menos repetir, com certeza, a expressão de Carvalho. Não em público, claro. Que ali ele errou feio.
Benjamin Moser, no mesmo debate, menos afoito disse acreditar que “é uma responsabilidade nossa (escritores, jornalistas, professores) chegar às pessoas, levar a elas uma ‘literatura difícil'”. Verdade, eu diria. Ele também tem razão. E mais uma vez, olhando bem, veria dois lados. Sim, temos a responsabilidade de levar o melhor da literatura, a tal “literatura difícil” – ou que foge aos padrões “etiquetados” de hoje – para o leitor. Dentro desta questão da responsabilidade, entra um trabalho de fôlego, uma luta constante e longa. Porque fazer isto é mais ou menos tentar obrigar alguém a comer o que não gosta. A pessoa, se puder, não aceitará. Se comer para agradar, comerá uma vez e nunca mais. E se empurrarem muito a comida, o indivíduo vai acabar é vomitando a iguaria oferecida, seja a melhor que seja. Gosto é gosto, repito.
Neste debate de leitor e escritor, lembro que me perguntam sempre se sou escritora. Respondo que sim, pois escrevo e edito. Escrevo há mais de vinte anos, tenho mais de dez livros publicados que muitos admiram, elogiam, mas não compram, portanto, não vendo livros. Como escritora, não sou valor para editora nenhuma. Ao lado disto criei e edito uma revista literária há sete anos que circula por todos os continentes e por onde já passaram e passam talentos que não entendo como não são logo “fisgados” por alguma editora! Não entendo como não “explodem” em vendagem dos livros que sofridamente editam.
Vejo no meu dia a dia, como vi nos quatro anos de estande na feira internacional do livro aqui em Genebra, escritores que orgulhariam a literatura lusófona contemporânea. Mas continuam no anonimato. Não estão na mídia. Estão fora de canais de “vídeo-realidade” que viraram moda no Youtube; estão longe das entrevistas do Jô Soares ou dos autores recomendados das grandes revistas e jornais. Desta forma, talvez nem cheguem a ser lidos por leitores que poderiam apreciar seus talentos.
Tudo isto dito, volto à questão dos dois lados que precisam sempre ser vistos em toda situação. Se há o leitor para quem poderíamos dizer um sonoro “que se foda” porque ele lê e só escolhe a facilidade (Respeitemos seu gosto! Ou não?) e corre da raia quando algo mais elaborado chega diante dos seus olhos… Se há este, há também o leitor que carece de um horizonte informativo mais amplo, para quem não se leva “o que não vende” e para quem a literatura continuará sendo sempre a clássica, que tem seu céu pleno de estrelas consagradas e vê de vez em quando um “objeto” novo brilhando, mas que na maioria das vezes se apagará num curto espaço de tempo. Para este leitor não há o “foda-se”. Há a vontade imensa de levar até ele tudo o que tem surgido, tudo o que surge a cada dia. Não é à toa que se chama de “universo” literário!
De minha parte, eu tento levar literatura cotidianamente com minha revista, espaço que ofereço gratuitamente e divido há anos com centenas (milhares, talvez!) de escritores e leitores. E tentei com muito esforço através do estande que tínhamos na feira internacional do livro suíça durante quatro anos seguidos. Duramente e às minhas custas. Tentei mostrar ao público leitor muitos talentos, uns reconhecidos, outros ainda não. Pouquíssimos leitores souberam aproveitar a oportunidade. Os que ultrapassaram as próprias barreiras estão hoje enriquecidos. Os outros, bem, os outros…
Não, eu não vou repetir Bernardo Carvalho e não vou enviar o leitor para lugar nenhum e nem aconselhá-lo a ter uma atividade sexual diferente.
Eu me calo. Aliás, eu me calo, escrevo muito e tenho a ousadia de publicar o que escrevo. Textos imensos e intensos sobre a literatura que são chamados de textões e que são lidos por um selecionadíssimo punhado de leitores. Textões que, aparentemente saíram de moda – e eu que nem sabia ter sido moda… Mas não vamos xingar o leitor por isto. De novo: gosto é gosto!

 

Imagem do jornal Folha de São Paulo

 

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