Contos e crônicas

EMPATIA E APATIA: COMO SOBREVIVER NESTE MUNDO?

Ando sinceramente incomodada com a situação no Brasil e no mundo em geral. Do Brasil, particularmente com a situação política, claro, mas também com situações que envolvem outras questões que me afligem bastante porque sim, sou brasileira de nascimento e coração apesar da distância física existente.

Pensei que já estivesse de certa maneira habituada a saber de casos difíceis, coisas que sempre me dão uma vontade enorme de vestir uma roupa, ir para a rua e gritar, fazer qualquer negócio, mas não deixar passar em branco. Daí veio as histórias daquelas moças no Piauí e no Rio de Janeiro que foram brutalmente estupradas e onde vi o quanto as pessoas ainda julgam (e condenam) as mulheres por suas atitudes e roupas, minimizando os atos vis cometidos contra elas. Fiquei dias me sentindo mal, naquele espaço onde tudo o que somos é nada, onde tudo que fazemos é inércia, onde tudo que falamos não passa de “textão”, textinho ou comentário que se ignora. Comecei a perceber, juntando os pontos de lá e cá, a insignificância que a emoção sentida pela gente tem diante de uma sociedade que majoritariamente não se sente nem um pouco responsável pela violência social, moral, física e ideológica que atinge todo o país. Percebi que grande parte das pessoas estão encarceradas em seus (pre) conceitos não confessados e ainda se encolhem dentro de um orgulho malsão.

Foram passando os dias e casos e casos foram surgindo e inundando as virtuais leituras doloridas e melancólicas. Mas continuei.

Foi quando li um depoimento de uma jovem senhora, moradora de rua em São Paulo, que de repente um sino tocou dentro da minha cabeça e acabou por bagunçar tudo, me dando vontade de desaparecer (literalmente) da vida social que me rodeia, fosse ela real ou virtual. A empatia que me é natural sentir por indivíduos que nem conheço, veio com força total, porque me fez pensar em mais fatos que já acompanhei anteriormente e dos quais sequer ainda me recuperei.

A moça em questão contava em seu relato, ser uma advogada de profissão que, tendo trabalhado para um grande escritório de advocacia, perdera o emprego após ter descoberto segredos e falcatruas de seus chefes, o que a fez, honestamente, denunciá-los à justiça. Ela diz que depois deste acontecimento, não só perdeu o emprego, mas nunca mais conseguiu encontrar outro, tão grande a barreira que construíram para separá-la da sua profissão. Amigos, colegas e familiares ficaram contra ela, se afastaram, negaram qualquer apoio. Resultado de tudo isto: ela hoje é uma moradora de rua que, sentada numa calçada, exibe um papelão onde lê-se “Faxina RS 60,00”. E pasmem: a advogada conta ser mais simples ganhar esmola ali sentada do que receber um sim à sua proposta para faxina!

Não, não foi o preconceito que me levou ao choque. O que me levou ao choque foi ver mais uma vez a desonestidade vencendo. Uma vez mais os maus-caracteres sendo a escória que costumam ser e ainda assim, vencendo. E também, me fez pensar nas quantas histórias similares a esta não levaram outras pessoas a ter que viver nas ruas, a ser internadas em hospitais psiquiátricos, emprisionadas injustamente e até eliminadas. A ponta do iceberg da desonestidade é gigantesca, agora imaginar sua dimensão total…. Isto eu sinceramente nem consigo, pois não cabe em mim tamanho mal!

Viver honestamente, com honradez e decência, está ficando não só difícil, mas até mesmo perigoso. A impressão que dá é que estamos vivendo dentro de um daqueles livros ou filmes de suspense, onde os complôs são tão intensos, obscuros e intricados que ficamos inertes esperando a próxima reviravolta sem saber que ação podemos tomar sem que sejamos, nós também, comprometidos no esquema. E, pior de tudo, sem nunca saber quem são os verdadeiros vilões…

Como continuar sendo humano sabendo que um menino que lava louças morre apanhando do próprio pai pela suspeita de ser gay? Que mulheres precisam confessar suas intimidades publicamente para que as autoridades tomem (Talvez!) conhecimento das agressões e abusos dos quais são vítimas frequentemente? Não, não vou continuar esta lista que seria imensa (e atroz) porque o mal que sinto é cada vez maior.

Gosto de pensar que ainda faço parte dos “mocinhos” desta história toda. Mas mesmo dentro deste pensamento, me questiono: até onde o silêncio é voz e o conforto do meu lar pode ser minha plataforma de luta? Fico sem palavras, sem ar, sem vontades. Apática, diante da empatia sentida pela dor de pessoas que não conheço, mas das quais sinto na alma o sofrimento. Então, quando começam a secar algumas das lágrimas, ou mesmo usando-as como tinta, escrevo. Ou silencio de vez. Questão legítima de sobrevivência para a qual ainda não encontrei resposta.

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