Contos e crônicas

TODOS OS OLHOS

Fez-se silêncio no mundo.

Todos os olhos foram perdidos. As almas andam cegas por aí, temerosas das surpresas do caminho. Esbaram umas nas outras, subtraem-se de qualquer reação. Vagam desesperadas e em silêncio tentando não ser notadas. Descobrem a cada passo uma fragilidade desconhecida, uma agonia que aprisiona e suga a vitalidade que antes parecia ser eterna.

Todos os olhos foram perdidos. Os corpos andam por aí vazios das almas agora cegas. Não se movem, poderiam ser confundidos com mortos tão bem a ceifadeira lhes maquiou as faces, lívidas e imóveis.  De longe vem o frio e ele agarra brutalmente cada parte dos corpos que ainda se mostrava sensível. Aos poucos vem o sono e a vontade de partir, partir…

Todos os olhos foram perdidos. Há mentes inquietas, outras apavoradas, mas há também aquelas aquietadas pela falta da visão. No limbo dos pensamentos quase esquecidos, tentam criar…. Buscam as ideias geniais, as palavras que possam traduzi-las…. Desejam conhecer um pouco mais…. Poderiam se questionar sobre tanto… Mas de repente não entendem mais o que significa isto… questionar…  Sem ruídos ou imagens exteriores elas se calam…

Todos os olhos foram perdidos. Esvaziaram-se as ruas, os campos, os mares e as montanhas. O infinito branco abraçou céu e terra. Como se um conto de fadas fosse tornado realidade, tudo no mundo foi silêncio.

Foi quando o primeiro acorde tocou. Depois o segundo e outros seguiram. A música, voando célere, carregava dentro dela uma energia que nenhuma consciência, em qualquer plano estivesse, conseguia subverter. Era uma força sem braços, sem máquinas, sem gritos e sem olhos. A força totalmente cega de sons unidos a se propagar em forma de uma melodia intraduzível, era tão elevada e sublime que conseguia atravessar distâncias em segundos…

Abriram-se primeiramente os olhos das almas tristes. Encantados, deixaram que a música lhes enaltecesse e com ela voaram…

Abriram-se em seguida os olhos das mentes aturdidas. Estarrecidas e mesmo sem nada compreender, restava-lhes a imensa alegria da visão…

E os corpos, que sentiam a melodia roçar os ouvidos, mesmo com tanta beleza, não abriram os olhos. Acostumados à cegueira e à imobilidade, negaram o convite das almas para dançar… Afastaram os pensamentos que lhes pediam para reagir… Os olhos de todos os corpos permaneceram fechados, esquecidos de tudo o que já tinham visto. Gelados e inertes, caídos e sem defesas, foram levados pelas mãos da morte que já os aguardava sedenta. Desabitados de qualquer vida verdadeira, partiram vazios de alma e pensamento.

Fez-se silêncio no mundo.

 

Imagem by Geralt

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