Contos e crônicas

PURIFICAÇÃO

Soltou pela boca tudo o que não aguentava mais. Vomitou as palavras pelo chão, pelo ar, para todos os lados. Nos lábios e no rosto o resto delas lhe deixava sujo o semblante. Fazia tanto tempo que engolira aquelas emoções que agora elas tinham saído feito doença, escura face do que não tinha conseguido assimilar. Era cedo ainda, apesar da noite. Neste exato momento queria voltar a ser criança. Como a noite que se falava assim. Não… criança não… criança não…. Por favor, criança não! Não percebeu, mas tinha voltado a chorar. Soluçava. Tropeçava tanto que caiu de joelhos. Olhando o céu pensou que talvez valesse a pena pedir perdão. O perdão quem sabe lhe trouxesse paz. Não… nada de mendigar algo que era ela quem merecia receber. De um, de mais de um, de vários. Vários perdões esquecidos. Vários desgostos infligidos e nunca abreviados por um perdão. Nenhum remorso no íntimo dos que a ela levaram o mal. O sofrimento era uma ferida aberta, uma agonia intensa. Corroía a dor o seu corpo como se fosse feita de espinhos e facas. Ainda chorava. Pensou em vingança. Vingança silenciosa da vida. Aquela que se come fria porque a vida sopra até esfriar enquanto se observa. Deixou então sair de si ainda algumas palavras, as mais fortes, impudentes e torturantes. Expeliu veneno. O veneno que com o qual ela mesma vinha se matando. Curvou-se com as implacáveis dores de um parto forçado a rasgar suas entranhas. Estas últimas palavras não arranhavam a garganta, cortavam. Saíam e o sangue vinha junto. Quando, enfim, toda a sujeira estava espalhada ao seu redor, olhou e viu as poças tenebrosas, fundas. Subiu de dentro primeiro uma melancolia, depois um desespero… E veio então, de repente, um grande alívio: Agora tudo estava fora dela! Tocou o ventre e sentiu o vazio… Tinha, através das palavras, expurgado a alma. Não se via sorrir, nem pensar no horizonte. Mas já começava a sentir força para se erguer do chão. Reconhecia a vontade de caminhar. Era suficiente. Fechou os olhos, ergueu-se num movimento só e fez de si um novo ser.

 

Imagem by Francesco Ungaro

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