Contos e crônicas

PAUSA: REFLEXÃO, ROTINA, SURPRESAS E LUTO

Passa-se dormindo boa parte da vida. Dormindo literalmente, olhos fechados, sonhos ou não, repouso ou não, horas a fio. E também dormindo no sentido figurado, quando seguimos vivendo de uma maneira meio automática, levantando, fazendo as atividades rotineiramente incluídas em nosso dia até chegar o momento de ir dormir para esperar o dia seguinte. Entre os dois “dormires” não há muita diferença, senão aquela de que em um ficamos inconscientes, ou praticamente inconscientes, e noutro a consciência até existe, mas não é a que imaginamos ter.

Aí um dia a gente acorda e o mundo mudou. Na verdade, o mundo todo e de todo mundo não mudou. Mudou o mundo da gente, ou a gente se transformou, ou tudo dentro da gente e em volta da gente ficou claro, real, como se uma lâmpada mais forte agora estivesse acesa…. Duramente, a gente se dá conta que a hora e o momento de mudar chegou. É mudar ou mudar. Permanecer igual, vivendo igual, sendo igual, fazendo igual… não é mais opção.

E quando falo acordar, falo despertar mesmo. Não do sono tranquilo ou agoniado que nossas noites nos proporcionam, mas do sono cotidiano, este que nos mata cada dia um pouco mais enquanto mecanicamente despertos.

De repente o despertar se faz e ele é estranho, chega a ser estarrecedor e ficamos perdidos, sem saber quem somos, onde estamos e o que faremos daquele minuto em diante. É o instante em que vemos estupefatos a morte de antigos sonhos, grandes esperanças e tudo o que consideramos “construções” e realizações aparecem como sendo nada mais do que etapas para o nada que agora se configura real.

Sim, houve uma evolução: o mundo evoluiu para o norte enquanto você plantava sementes no sul. Novas constelações surgiram no céu enquanto você não tirava os olhos do satélite que caía, fazendo um sonhador pedido ao que pensava ser uma estrela cadente. O mar se fechava aos refugiados e você ainda pensando em Moisés e no Mar Vermelho. Enquanto você dormia, a vida acontecia.

Mas dormir nem é um problema, é uma necessidade. Apenas, o ato deve se restringir ao que se refere ao descanso do corpo e da mente e não ao sonambulismo quase voluntário, que é o que muito se pratica na indiferença com aquela vivemos o dia a dia e com a qual tratamos assuntos de importância vital como as decisões e reorientações que devemos assumir (ou não).

O viver mecânico, aquele onde já sabemos nosso dia antes mesmo que ele comece, aquele onde o significado de rotina já nem existe porque é inseparável da vida ela mesma, este viver que nem é viver de verdade, este viver é de uma fragilidade tão grande quanto um objeto de cristal. E este objeto pode a todo instante se quebrar, espalhando cacos por todos os cantos e, em consequência disto, cortando e fazendo sangrar, causando dores e consequências imprevistas.

Toda uma vida de dedicação a um trabalho, à família, a uma causa. Uma vida inteira ou grande parte dela ligada quase que umbilicalmente a alguém ou a uma maneira de pensar.

E vem o dia em que se abre os olhos e este abrir de olhos é então literal e absurdo. Olha-se para todos os lados e nada mais está no lugar, nada mais é o que sempre se acreditou ser. Nem a gente mesmo. A estrada que penávamos ainda longa e cheia de agradáveis surpresas simplesmente acabou, não havia absolutamente nada no fim de dela e agora é preciso escolher outro percurso e toda a bagagem acumulada para o antigo destino não é mais útil. Obsoletismo total, nos vemos carregados com o peso do que acumulamos em torno do que tínhamos como nossa realidade.

Soluções? Elas estão por aí, soltas no vento. Não, eu não tenho respostas e nem mesmo recursos e não estou escrevendo um artigo de autoajuda para mim ou para você.

Estou parada no meio da estrada, olhos abertos, cérebro atento, olhando para as outras direções e me perguntando para que lugar quero ou deveria ir. São dúvidas difíceis de responder porque ainda penso da forma antiga e tenho dificuldades de me livrar de toda a bagagem que trago nas costas.

Tenho neste momento duas coisas difíceis dentro de mim e que certamente contribuirão para que que chegue a uma conclusão mais tarde: um susto enorme ao me deparar com uma realidade para qual não estava preparada e que me causou este despertar aflito. Este susto é de um tamanho tão imenso que me fez sair da virtualidade. Como no filme Matrix, tomei a pílula, caí na real. Caí mesmo. Realmente. E juro que engoli a pílula sem querer, num gesto inadvertido acabei fazendo algo que um dia me será útil, isto no fundo eu sei… Só não é simples e nem fácil de viver.

E a outra coisa, um desânimo profundo. Uma espécie de luto que deve ser vivenciado, compreendido até que seja aceito completamente. Mesmo tendo tomado consciência “sem querer”, agora o mal (ou o bem) está feito e não há como voltar atrás.

Daqui para frente, nestas linhas e na vida, tudo é mistério e ação. Já passei por isto antes, sofri, penei, mas sobrevivi escolhendo estradas diferentes que me levaram a mundos inesperados. Provavelmente farei isto novamente. Só que, como desta vez a maturidade me concede os freios necessários, não tenho pressa de decidir, me dou ao luxo do descanso, estou parada. Sentada à beira do caminho, literalmente. Me permitindo a tristeza, mesmo se lágrimas são só engolidas. Me permitindo o nada.

Quando me levantar serei outra pessoa, com certeza. E com a força habitual que me é inerente, farei o que tiver que fazer para seguir adiante. Até lá, o botão da pausa está acionado

É o tempo que me concedo para avaliar tudo o que deve permanecer e tudo o que deverá ser inutilizado. O que poderei levar comigo e o que abandonarei mesmo com dificuldade. Pausa para o luto e para reaprender a lutar.

Segue a vida. Eu seguirei mais tarde.

 

Imagem by Pexels

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