Poemas

A FERA QUE APENAS EU VEJO

o medo fez enxergar o animal que das sombras me espreitava…

sua raiva mostrando-se nos caninos expostos e afiados…

e seus olhos traduziam a fome do corpo em desespero de alimento…

a espuma escorrendo como baba por entre os seus dentes…

assustada, permanecia num canto de mim mesma encolhida

sem saber se valeria a pena correr, tentar a fuga na obviedade

de uma distância que deixasse livre da presença bestial…

 

mas subitamente uma luz passou sobre a sombra que ali estava

e num olhar apenas vi mover-se os panos já surrados

da cortina velha que guardava a janela do apartamento!

suei frio como não suo nem mesmo nos dias mais quentes

onde estaria a fera que ali mesmo eu vi tão feia e engrandecida?

teria ela se aproximado mais de mim e com sagacidade

se preparava para me devorar, possessa de todo seu mal?

 

foi quando percebi estar só… e que o bicho visto se alimentava

do meu medo mais profundo, da escuridão e ódio infiltrados

nas partes mais escondidas da alma e do coração sedento

quando, ao imaginar ter perdoado, esquecido… ainda sente

o ressentimento e a grande agonia que engrandecida

pela dor se espalha e dá a impressão real de eternidade

enquanto poderia ser algo mais simples e bem mais racional…

 

mesmo sabendo o que acontecia, ainda me estreitava

pelos cantos de mim, cheia do medo do bicho inventado…

que o medo quando cria, faz tão bem e é tão violento

com a realidade parecendo ser uma bobagem da gente

enquanto nos devora do interior da mente ensandecida…

era um lobo, uma hiena, um monstro gigante em ferocidade

só esperando a hora de destruir de mim o corpo e a moral…

 

por vezes é mais simples abandonar-se… e eu me abandonava

velhas razões, velhos ditados, velhos conceitos não desafiados

uma razão a mais para temer e daí sofrer com o tormento

de se imaginar sem força para vencer o perigo iminente

assim deixando ao animal não somente a própria vida

mas também as conquistas e bens que nem tem necessidade

e que, sem função ou razão acabam por ser só um final…

 

qual dia passei sem olhar sob a cama para ver se ali estava

o bicho, o fantasma, o ser disforme aos meus olhos desesperados…

talvez atrás da porta, da janela… chegará ele a qualquer momento

e me devorará inteira… me fará sofrer intensa e eternamente

por tudo aquilo que fiz e o que não fiz e o que de forma esquecida

deixei passar sem mais pensar e sem ter dó ou ter piedade…

mais fácil entregar-me à fúria e aos dentes da besta descomunal…

 

mas o medo um dia tem seu fim, mesmo se eu me condicionava

a conviver com aquilo que criei feito buraco para soterrados…

uma esperança de respirar melhor, ainda que sem sentir o vento…

abrir janelas, sair da escuridão… permitir à luz brilhar novamente

tirar da vida tudo o que foi criado pelas as dores homicidas

integrar a si mesmo outros valores e propostas da realidade

encerrando e deixando morrer o que um nos foi quase fatal.

 

Imagem by Eva Soulu

*Poema do estilo “Sético” (palavra escrita com “s” por ser uma mistura da palavra cético com o  fato do poema ter sete versos em várias estrofes). Estilo criado por mim.

 

 

Você pode gostar também de

Sem comentários

deixe uma resposta