Blog

CONVITE PARA LEITURA: REVISTA VARAL SOBRE A MULHER

Os fatos recentes de estupro coletivo, ou traduzindo a expressão, de barbárie, de selvageria, de covardia, me levaram a pensar na pesquisa que realizei para a edição de março da revista Varal do Brasil e onde fiquei pasma de encontrar um sem número de homens e mulheres que preferem condenar a mulher (desde crianças, até adolescentes e adultas) pelo estupro e livram os homens (??) da culpa sem constrangimento. Além disto, a falta de justiça já é de praxe. Recomendo a leitura, há reflexões que devem ser feitas e refeitas. Abaixo o link para a revista e meu editorial.

https://issuu.com/jacquelinebulosaisenman/…/varal_40_marco/1

EDITORIAL DA EDIÇÃO DE MARÇO DA REVIST VARAL DO BRASIL DEDICADA À MULHER

Pela quinquagésima oitava vez estendemos o Varal para mostrar a literatura de Língua Portuguesa. São 58 edições de nossa revista, entre as edições regulares e as especiais, todas trazendo os mais diversificados temas.
Foi como edição especial que fizemos pela primeira vez, em março de 2011, uma revista falando inteiramente da mulher. Depois disto, incorporamos o tema ao nosso mundo literário e, anualmente, fazemos a edição de março tratando unicamente do universo feminino.
Compreendo que muita gente pense que não há motivos para esta importância toda e que nós como seres humanos somos todos iguais e merecemos a mesma atenção. Pois é. Concordo e discordo. Concordo que somos todos humanos e que devemos, sim, receber todos a mesma atenção, consideração e tratamento. Mas discordo quando vejo que, em muitos lugares e em muitas situações, a mulher não é tratada como igual, sequer é tratada como ser humano.
Há uma falta de respeito muito grande pelo ser feminino. A mulher tem dificuldades imensas em ser vista com igualdade de direitos no trabalho, no meio social e até mesmo dentro de casa. Coisa que acontece não somente em países que têm isto como tradição e que mantém esta diferença cultural nos dias de hoje de forma totalmente natural. Nestes países, todos sabemos que a diferença entre o homem e a mulher é um abismo que atinge proporções incomensuráveis. Em certas comunidades a cultura da superioridade masculina é tão importante que a mulher é reduzida a um simples acessório e utilizada como tal sem que nenhuma consideração lhe seja devida. Algumas religiões contribuem para este fator de diferença quando designam a mulher como inferior ao homem. Mas é o ser humano que em geral interpreta mal os dizeres religiosos e acaba cometendo atos inomináveis em seu nome.
Há também nas sociedades mais modernas e ditas mais desenvolvidas, uma falta de respeito muito grande pelos direitos femininos ao ponto desta desigualdade gerar sérios problemas que a mulher deve enfrentar desde a mais tenra idade e nos mais diversos universos de sua existência. A mulher não tem o direito de decidir, em muitos países (inclusive em alguns considerados mais desenvolvidos!), o que fazer com o seu próprio corpo. Deve prestar contas à sociedade de suas decisões em relação ao que deseja ou não fazer com seu corpo. É cobrada, taxada, mutilada psicologicamente. Em muitos lugares, é inclusive mutilada fisicamente. E com tudo isto, muitas mulheres morrem, diariamente, principalmente as que possuem poucos recursos financeiros.
Sobre o corpo, a mulher também tem, nestas mesmas sociedades, que observar com atenção como se veste. Porque a mulher é, ainda na atualidade, julgada pela maneira como usa suas roupas. As mais ousadas, mais curtas, decotadas, ou que definam suas formas, são consideradas “convites” para o assédio masculino. Uma mulher, para ser considerada “séria”, deverá vestir-se “de acordo” com as regras sociais exigidas. Simplificando: “tapando” o máximo possível o seu corpo.
Parece brincadeira, mas em termos de atitude feminina então, teríamos uma dissertação a fazer. Mulher que se impõe por direitos iguais é considerada “não feminina” e inacreditavelmente a mulher que debate socialmente certos assuntos, é muitas vezes menosprezada e criticada. Porque ainda existem temas que são considerados “masculinos”. É também requisito para a feminilidade, que a mulher seja o mais submissa possível ao homem. E há homens que separam mulheres em categorias: as que “são para casar” e as que são para “uso sexual”. E isto sem a menor cerimônia. Porque foram educados para serem assim e hoje não conseguem enxergar que isto é um absurdo sem tamanho.
Reforçando o assunto, o assédio sexual que ainda é imenso, do mais disfarçado ao mais escancarado, acontece diariamente na rua, no trabalho, em festas, em qualquer lugar. Desde meninas, mulheres costumam ouvir o que não deveriam ouvir nunca: palavras de cunho sexual e pejorativas lhes são dirigidas; piadinhas de mau gosto com referências sexuais e “elogios” extremamente duvidosos. Fatos que acontecem na escola, entre amigos e inclusive em casa. Muito de tudo isto é considerado apenas como “natural”: “bobagem de menino”, “elogio”, “coisa de homem”, etc… As famosas “cantadas” de baixo calão, tão “normais”!
Mulheres são batidas; são violentadas de maneira cruel (física e psicologicamente). São apedrejadas, chicoteadas, presas, condenadas à morte, obrigadas a casamentos contra vontade e tantos outros atos cruéis que passam, de forma praticamente invisível, diante dos olhos de certas sociedades que raramente se erguem em defesa da mulher. E quando mulheres se unem e vão às ruas ou criam meios virtuais para lutar contra as crueldades a que são submetidas, são imediatamente chamadas de “mal-amadas”, “só podem ser feias” e tantas outras expressões negativas e ofensivas.
Meninas são criadas desde pequenas para serem futuramente boas esposas, enfeites que devem embelezar a casa e agradar ao marido. Século passado? Não, hoje! Meninos são criados para casar apenas com “mulher séria”, para sustentar a casa e a família! Século passado? Não, hoje! Esta distinção clara e errada, é um fato que persiste em muitas famílias.
A mulher (hoje!) que decide não se casar, é quase uma afronta social. Sua decisão é questionada, como se casar fosse uma obrigação, um destino irrefutável! E será pior ainda para aquela que decidir não ter filhos. O fato de uma mulher não querer ser mãe é algo que assusta a sociedade convencional.
O mundo do trabalho também é um dos que se nega a tratar com igualdade homens e mulheres, negando a estas últimas o direito de ter salários iguais quando exercem as mesmas funções.
Entrando num tema bastante debatido e recentemente ocorrido: No início do ano o programa Big Brother Brasil levou para diante das cortinas, mesmo que contra a vontade, um assunto que incomoda: a pedofilia. Um dos participantes, de 53 anos, foi acusado e apontado do dedo por ter afirmado, no programa que foi ao ar em rede nacional e aberta, gostar de “meninas mais jovens” e de “facilitar” o contato com bebidas alcoólicas. Tudo foi amplamente discutido nas redes sociais gerando milhares de comentários de homens e mulheres que se posicionavam contra ou a favor do dito candidato.
O tema pedofilia, que não atinge apenas meninas, mas também meninos, é tabu mesmo nos dias de hoje e é um assunto aterrador. Muito me espantou ver a quantidade de gente (e pasmem, principalmente mulheres!) que defenderam com unhas e dentes os homens nesta situação. Os comentários realizados pelas mulheres, bem mais sarcásticos, diziam “não ver problema algum em um homem bem mais velho gostar de novinhas”; “estas meninas fogosas que só querem isto mesmo”; “são todas umas piranhas”; “a idade do homem não conta num relacionamento”; “são elas que provocam” e muito mais!
Espantoso de perceber que as próprias mulheres se negam a ver o óbvio em frente delas que é o fato que meninas e adolescentes não têm maturidade alguma para viver certos tipos de relações, mesmo quando elas mesmas têm certeza que têm e se imaginam adultas.
Uma reportagem, realizada por uma jornalista brasileira, mostrou que, para espanto geral dos que se preocupam com a situação das menores de idade, no Brasil um número alarmante de meninas entre dez e dezessete anos já se casou e tem um ou mais filhos.
E neste caso, a reportagem que também gerou muitos comentários em redes sociais, mostrou a dura indiferença feminina em relação a estas crianças que, por força da vida e abandono social, abdicam da infância em troca de segurança financeira ou emocional. Os dizeres das mulheres, apoiando os homens e acusando as meninas, são assustadores e fazem pensar seriamente como a insensibilidade pode ser grande. Mulheres machistas não são novidade em nossa sociedade, mas saber que, seja lá porque motivo for, elas defendem algo tão criminoso quanto a pedofilia, é realmente angustiante e desolador. Mais ainda porque sabemos que há toda uma cultura social que protege a pedofilia e mulheres têm um grande papel nesta proteção, quando permanecem do lado masculino, defendendo o homem e acusando crianças de serem “sedutoras” ou “prostitutas”.
A falta de educação contribui para que estas situações perdurem, mas a falta de interesse em ajudar também é flagrante quando percebe-se que até mesmo o turismo sexual é favorecido e enfatizado através dos meios de comunicação. Tomem como exemplo a Globeleza que explora escancaradamente a mulher negra, exibindo sua nudez ao convidar para o carnaval, festa onde sabemos que, infelizmente, acontecem inúmeras violências sexuais contra mulheres de todas as idades.
Mesmo com estes fatos negativos, as conquistas femininas realizadas por mulheres fortes e que acreditaram em si mesmas e em suas semelhantes, foram muitas ao longo dos anos e trouxeram à luz problemas que precisam ser debatidos e leis que precisam ser revistas. O mundo necessita de todos, mulheres e homens, mas precisa, sobretudo que todos sejam tratados de forma igual, com igual respeito e direitos, independentemente de sexo, orientação sexual, raça, religião ou qualquer outro fator que possa entrar em questão.
Falando desta edição, não poderia ser mais grata a todos vocês que enviaram textos. Estamos aqui com um número recorde de páginas, que espero, vá alegrar a todos proporcionando uma excelente leitura. São textos de todos os gêneros e estilos, de pessoas que soltaram seus pensamentos, fizeram odes, contaram histórias, relataram a vida de algumas personalidades femininas.
E trazemos também uma novidade: tirinhas fantásticas realizadas por Cibele Santos e Camila Thomazini. Elas já conquistaram a Web com a página Mulher de 30 no Facebook onde diariamente postam as aventuras femininas das mulheres de 30. Mas vocês vão perceber, leitoras, que não importa a idade, todas nós podemos nos identificar com as aventuras e desventuras contadas nas tirinhas muito alegres e inteligentes. E os leitores masculinos com certeza reconhecerão nelas as mulheres de suas vidas!
Temos aqui textos maravilhosos: tomem fôlego, tomem tempo, preparem um cantinho especial para leitura: esta edição vai conquistar seus corações e abrir seus olhos para muitos fatos!
Gostaria de mais uma vez agradecer a todos, leitores, escritores, colaboradores. O Varal do Brasil se estende mais uma vez graças a vocês e para vocês! Até a próxima!

Você pode gostar também de

Sem comentários

deixe uma resposta