Contos e crônicas

A MENTE TAMBÉM FECHA OS OLHOS…

É possível que quando você tenha iniciado sua leitura seus olhos estivessem abertos. Só que o livro ou o texto era muito longo. Quem sabe o assunto não era bem de seu interesse. Ou o conteúdo talvez trouxesse argumentos que contradissessem sua opinião já formada. A verdade é que no momento em que sua mente esbarrou com algo que foi “contra” você, ela se fechou. Você pensa então ter permanecido com os olhos abertos, mas não. Eles se fecharam junto com a mente.

Textos longos, livros com muitas páginas e assuntos de certa forma desagradáveis, tendem a deixar o leitor cansado antes mesmo de começar. Claro que existem aqueles que não se deixam intimidar por estes fatores. Mas a era da internet trouxe em suas páginas os cabeçalhos que resumem tudo e me espanto de ver, nas redes sociais, pessoas que perguntam, nos comentários, “quem já leu” para saber do que fala o título anunciador sem que elas mesmas precisem ler tudo. Tornou-se mais simples “deduzir” a partir da leitura do outro e criticar a partir desta dedução.

De olhos (e mentes) fechados as pessoas também costumam repassar para outras pela internet ou em conversas casuais, fatos dos quais “ouviram falar” ou que leram “por aí”. Não há um real interesse pela veracidade de fatos, mas apenas o encaixamento dos mesmos no contexto do papo se assim parecer conveniente. Como para um livro ou um texto volumoso, a mente fecha os olhos do leitor numa má intencionada manobra para manter o que já era certeza antes, sem dar chances para que a verdade, ou as verdades, possam entrar em cena.

E não imaginemos que isto acontece apenas com o que se lê. Os ouvidos tendem também a se fechar para o que não convém. A mente, seletiva a partir daquilo que lhe foi bem determinado, cumpre seu papel fechando todas as portas do corpo que possam lhe trazer informações novas, de onde a consciência possa buscar evidências para despertar.

“Só os tolos não mudam de opinião”, disse James Russell Lowell.  E infelizmente, são muitos os tolos que preferem se enterrar em seus argumentos do que abrir a mente para a compreensão de pontos de vista que divirjam dos seus. Fecham-se para tudo o que não seja condizente com os seus pensamentos. Recusam o diálogo pacífico e entregam-se à agressividade. Como se somente através da violência de palavras e através delas e das investidas que chegam a ser ataques morais, pudessem sustentar suas crenças e opiniões contidas em viseiras perfeitamente acomodadas. Não se desculpam, não voltam atrás. Permanecem trancados dentro de si mesmos ainda que chovam em suas realidades motivos óbvios para mudança.

A palavra mudança em si já causa muito desconforto nas pessoas que se recusam a manter o espírito aberto. Mudança significando “transformação”, fica praticamente impossível esperar tal atitude de quem já se resignou a ser e crer apenas naquilo que é conveniente para si mesmo.

As perguntas que devemos nos fazer sempre são: – Até que ponto minha verdade é única? Até que ponto irei para defender o que acredito sem abrir mão de minha integridade? Por que tomar conhecimento de outras opiniões me fere tanto? Por que a verdade do outro me incomoda?

Ler e ouvir com a mente aberta, são artes que exigem uma grande capacidade de desprendimento muito grande. Assim como também exigem discernimento, vontade e coragem. Porque sair do pequeno mundo onde vivemos para encontrar outros mundos, não é para todos, infelizmente.

Há muitos que ainda pensam estar sós no universo!

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