Contos e crônicas

LITERATURA: DESCONSTRUINDO UMA REALIDADE

Lidar com literatura nunca foi algo simples, pois além da questão nem sempre clara – e em imensa quantidade – de gêneros e estilos, lidamos também com as expectativas de quem escreve e os humores de quem lê.

O escritor, seja ele amador, novato ou já conhecido do público, dependerá sempre do humor de seu leitor. E por humor, preciso aqui o fato de que o leitor é um crítico em sua essência e consegue perfeitamente declarar seu amor ou ódio por um livro ou texto lido. Isto acontece principalmente nos dias de hoje, quando sabemos que a internet e as redes sociais deram poder a todos para expressar – com vigor e nem sempre com propriedade- suas opiniões.

Claro que o escritor tem e terá sempre a liberdade de existir em seus escritos da forma que mais lhe for conveniente. Sempre sairão de seu âmago as emoções mais arrebatadoras, as tiradas mais ferozes, as histórias mais inesperadas. Também dele sairão versos românticos e/ou apaixonados tanto quanto relatos cotidianos que transpareçam a realidade vivida ou criada em sua imaginação. Quem escreve se inspira em estilos já estabelecidos ou cria o seu. Tem gênero preferido, ou navega entre eles sem cerimônia. O escritor é um viajante que vai ao longo da estrada largando sua bagagem e recolhendo outras.

Justamente aí, quando a bagagem é deixada à margem da estrada – em forma de livros, textos na internet ou outros – é que entra em cena o leitor que, reticente ou ávido, lê o que foi escrito, gosta ou não, dando seu parecer quando lhe apraz.

A velocidade do aparecimento e desaparecimento das informações no mundo de hoje faz com que o leitor reaja praticamente de forma imediata a tudo o que lê. Suas reações, escritas, comentadas ou ainda no boca-a-boca, levam outros leitores a buscar a mesma leitura ou a rejeitá-la sem pestanejar ou questionar.

Hoje em dia, faz sucesso na literatura o que é mais divulgado, principalmente em redes sociais. Num mundo literário onde ainda em nossa atualidade o elitismo permanece e subestima a maioria dos leitores, as redes sociais contribuíram para que muitos escritores – alguns na estrada depois de longa data – pudessem se popularizar, ser lidos e pudessem, da mesma forma, mostrar ao público os seus livros publicados através de pequenas editoras.

Obviamente, continuam fazendo sucesso midiático e financeiro aqueles que são abraçados pelas grandes mídias e grandes editoras. Mas decididamente a internet abriu uma porta para os demais onde agora fluem livres escritores que nascem para a literatura de maneira cotidiana.

E é aí que atua o leitor/crítico, este que é o objeto de tudo o que é escrito: Ele, o leitor, é a porta por onde passam (ou esbarram) todos os escritores, não importando se são famosos ou não; se são talentosos ou não. É o leitor quem decide, soberano, se o que foi escrito vale a pena ser lido e passado adiante para outros leitores.

Para o escritor que teme a crítica e escreve pensando nela, algumas vezes pode ser até mais simples, porque ele acaba escrevendo o que sabe que será convenientemente lido. Mas para o escritor que escreve sem saber se o mundo ou um indivíduo apenas um dia lerá suas palavras, tudo se complica um pouco. A aceitação do novo é com certeza ainda bem menor.

Literatura, apesar de parecer um mundo mágico e fascinante, pode ser um largo mar de monstros que se devoram ou se ignoram. Mesmo associações, academias e organizações, que deveriam apoiar e divulgar seus membros, tendem a ficar na retaguarda, colhendo frutos de mensalidades e anuidades sem realmente fazer algo de concreto e produtivo. Há, numa contracorrente à qualidade, uma certa fascinação pela quantidade, seja de livros editados ou de eventos de distribuição de prêmios.

Destes últimos, a distribuição de prêmios, medalhas e títulos, vemos um crescimento irracional e completamente sem parâmetros que possam demonstrar um mínimo de seriedade. Certamente há prêmios idôneos que são concedidos pelo mérito e dos quais não se tira a importância. Mas, convenhamos, uma grande parte deles é criada única e exclusivamente com o intuito de arrecadação financeira para suprir uma ganância que não enxerga a literatura, mas o que dela pode tirar como proveito. Sim, há hoje em dia escritores pagando para ser premiados e ter em seus currículos prêmios e títulos que sequer possuem algum prestígio real. São pagamentos “disfarçados”, contendo nomes e explanações que incluem tacitamente o prêmio, a medalha ou o título, deixando crer que o escritor os receberá por puro mérito.

A mediocridade destas situações tem alcançado um tal nível do universo literário que já se questiona a validade até de prêmios mais conhecidos.

Da mesma forma, os auxílios para projetos culturais recebidos por leis como a Rouanet, no Brasil, mais do que nunca têm sido discutidos e polemizados pelo seu uso indiscriminado e sem verdadeiros objetivos culturais, beneficiando bem mais quem já tem meios financeiros para realizar um projeto cultural do que os que realmente precisariam de apoio.

A verdade é que há uma exploração do escritor por um segmento desonesto e que se aproveita sem piedade do mesmo através do seu ponto mais fraco que é a dificuldade da edição, reconhecimento e divulgação de suas obras editadas. Promovendo superficialmente o escritor, o enganador vai além e lhe dá a ilusão de ser alguém no mundo da literatura quando lhe entrega objetos que validariam o seu talento, mas que, sabemos, não passam de aparências que não iludem mais ninguém. Da mesma forma, os pretensos eventos que não são conhecidos por praticamente ninguém mais do que aquele que se intitula organizador. Maneiras variadas de levar vantagens!

Este talvez seja o preço de vivermos uma era assaz superficial, onde além da brevidade das informações, vive-se também a celeridade do que chamaríamos em outros tempos de reconhecimento de obra e carreira.

O leitor, ele, sabe onde se encontra a verdadeira celebridade e o real talento? Muitas vezes não. Influenciado pelas informações massivas que lhe chegam aos olhos e ouvidos diariamente, o leitor nem sempre consegue distinguir estes fatores. Mesmo porque, celebridades amanhecem e nem sempre anoitecem célebres; e talento é um fator discutível que depende invariavelmente do gosto de quem lê para confirmar-se.

Foi-se o tempo em que escrever era uma arte e a leitura pelo próprio escritor, um caminho necessário para chegar até ela. Já não vivemos mais a época em que o escritor se via na obrigação de ler os clássicos, mesmo se os abominasse, para aprender sobre estilo e linguagem e desta forma aprimorar a sua escrita.

O mundo gira rápido, rápidas são suas demandas e rápido deve ser também aquilo que é escrito: livros com poucas páginas, textos curtos, tudo veloz como veloz é a vida que nos cerca. Não há tempo para questionamento, releituras, discussões sobre o que vemos, ouvimos, lemos. Quando muito, a capa de um livro surge numa foto ou um pequeno trecho é citado em um e-mail ou uma postagem em rede social. (Parênteses aqui para reafirmar a questão da falta de pesquisa, que leva a tantos compartilhamentos de textos sem os devidos direitos autorais ou com citação errônea do nome do autor).

Sim, a literatura, assim como a cultura em geral, não está fácil de ser vivida. Entre os que tentam extorquir o que podem em torno da edição de um livro, de premiações e intitulações absurdas ou de eventos forjados da forma mais enganadora por profissionais sem escrúpulos; seguindo pela falta de aperfeiçoamento de certos escritores que não se preocupam com a qualidade sequer da gramática e ortografia de seus escritos; continuando e encontrando o leitor que não busca o novo e apenas segue o estabelecido… Por tudo isto e mais ainda que poderíamos falar por linhas e linhas, a literatura tem decaído bastante e os grupos intelectuais elitistas se proliferam tentando se afastar daquilo que encaram como ultraje ao mundo literário que deveria idealmente existir.

Pessoalmente, sigo meu caminho, escrevendo, publicando em meu site e em alguns outros espaços virtuais. Editando menos livros, que não está fácil para ninguém e a prudência me dá paciência para esperar e publicar mais adiante, sempre primando pela qualidade sobre a quantidade. Com o Varal, sigo com m seu lema: Literário Sem Frescuras. E continuo acreditando que a literatura pode e deve ser popular e que o escritor que se lança neste mundo chega com vontade de ser melhor e de transformar as coisas. Confio também no leitor, este que me escreve sobre meus textos e também sobre a revista para dar sua opinião sobre ela ou sobre um texto que lhe tomou a preferência e o fez vibrar.

Sinto com certeza a maré instável da literatura, neste mar onde diariamente surgem os monstros e onde tantos afundam. Sofro com a mediocridade e hipocrisia que tem reinado ultimamente no universo literário. Mas não abandonarei o barco. Navegarei enquanto for possível, de forma sempre honesta, transparente e com o profissionalismo e amor que sempre dediquei à literatura. Porque sou assim, não sei ser de outro jeito e nem desejaria ser.

Você pode gostar também de

Sem comentários

deixe uma resposta