Contos e crônicas

EU NUNCA OU A EXPRESSÃO DO DESPREZO

Ultimamente, a expressão que mais leio e ouço das pessoas que cultivam um ódio desnecessário, dirigido e cego por um único partido político e seus representantes e eleitores é: “Eu nunca…”.  O tal “eu nunca” começa a maioria das frases cheias de ressentimento e é usado como desculpa obrigatória para odiar ainda mais qualquer coisa que seja relacionada à razão de suas raivas extremas.

Falando de cultura: Artistas de cinema e TV, escritores e outros têm constantemente dito o “eu nunca” acompanhado do fato de que fazem tudo sozinhos sem precisar de apoio público. Que bom, gente! Eu também poderia me incluir aí, já que batalho sozinha há tanto tempo por meus escritos e pela literatura em geral. Mas prefiro não me incluir. Não gostaria de fazer parte deste coro de vozes que transparecem um grande egoísmo, misturado a um sentimento meio transtornado de que dever cumprido. Afinal, convenhamos, mesmo com erros cometidos na questão da escolha dos beneficiários de seus subsídios, o Ministério da Cultura recém extinto sempre fez mais, bem mais do que a ponta do iceberg mostra e com menos, bem menos verba orçamentária do que a mídia assassina propaga. Seu alcance sempre foi grande e, sinceramente, não é porque eu não recebi ajuda que vou querer que tudo se exploda! Bem pelo contrário, quero que continue, que melhore, que possa crescer e desenvolver melhores sistemas de apoio. A cultura é fundamental para que todas as bases da sociedade possam seguir em harmonia. E cultura não é somente a biografia da Cláudia Leitte (que eu mesma critiquei duramente quando a cantora tentou se favorecer pela Lei Rouanet) ou uma peça de teatro controversa (que para mim também não dá para considerar como arte) ou ainda um show do Chico Buarque (eu nem tenho informações corretas sobre de que forma ele foi beneficiado).

Aliás, o próprio ministério nunca foi somente a Lei Rouanet. Seu alcance era muito maior e nos últimos tempos vinham agregando a população mais simples e pobre, dando oportunidade a muita gente de frequentar um cinema, por exemplo, pela primeira vez. A cultura é a identidade de um povo. É a soma de todos os seus costumes, tradições, de sua produção artística, artesanal. Cultura são todos os valores populares traduzidos. Da música de uma orquestra ao trovador popular; do coral de uma igreja ao som de um baile funk na favela; do axé ao sertanejo, da MPB à bossa nova. É a música do artista que a rádio não toca por falta de jabá e a música do outro artista que tem gravadora para pagar o jabá. Cultura é balé clássico, mas também é Anitta no palco; é casal dançando baião no sertão e jovens dançando com som eletrônico nas praias. Cultura é o filme do diretor que realiza suas produções entre amigos porque não consegue verbas e é o filme de um diretor que tem seu filme indicado para prêmio internacional. Cultura são os livros de Jorge Amado, de Paulo Coelho, de Lygia Fagundes Telles ou Martha Medeiros. São os cordelistas e é Vinício de Moraes. São as rendeiras, as bordadeiras, as benzedeiras. São os cultos de umbanda e candomblé e são as procissões cristãs. Cultura são os livros que você escreve e os meus também o são. Cultura é teatro, mas também as novelas. Cultura está na erudição e na massa. Cultura é o retrato da caminhada que um povo realiza.

Então, quando escuto ou leio a expressão “Eu nunca” iniciando a fática frase que se traduzirá por “já que nunca me deram nada, que se ferrem, que fechem, que nunca mais abram as portas”; quando vejo o “Eu nunca” tão cheio de ódio se propagar rancorosamente em mensagens vingativas… Quando vejo isto, é automático que me venham à mente algumas situações.

Trabalho: ‘Eu nunca” precisei das leis trabalhistas, então para que quero que elas existam? “Eu nunca” mais vou precisar do sistema de aposentadoria, porque já estou aposentado (a), então que aumentem a idade para quanto quiserem.

Saúde: “Eu nunca” faria aborto, então o que é que eu tenho a ver com o fato de que as igrejas querem regular a questão ou que milhares de mulheres pobres morram todos os dias? “Eu nunca” precisei do SUS, então por mim que acabem com tudo. “Eu nunca” iria ver um destes comunistas cubanos que dizem ser médicos, podem expulsar todos!

Educação: “Eu nunca” vou ter um parente que vai precisar de merenda, então para que estes estudantes vadios brigam por isto? “Eu nunca” precisei do sistema público de educação, por mim deveriam cobrar de todo mundo. “Eu nunca” achei justo este sistema de cotas, muito preconceituoso, então acho certíssimo acabar com tudo isto. “Eu nunca” usei este pro-isto ou aquilo, nem quero saber se estão cortando as verbas.

Moradia: “Eu nunca” precisei destes programas de casa e vida, acabem logo com esta farra desse povo inútil. “Eu nunca” vi com bons olhos este pessoal sem teto e sem-terra, tem é que tocar a polícia em cima deles para acabar de uma vez com estes “animais”.

Segurança: “Eu nunca” me misturei com estes bandidos que se manifestam de vermelho, tem que mandar a polícia prender todos. “Eu nunca” achei corretas estas ocupações de escola, tem que tirar estes estudantes e professores de lá nem que seja abaixo de cassetete. “Eu nunca” vi uma crise como esta, preferia a volta da ditadura militar.

O pessoal do “Eu nunca” é fera em pesquisar e divulgar informações provenientes sempre e unicamente das mesmas fontes midiáticas. São aqueles que acham que estão sustentando vagabundos quando leem sobre verbas gastas em programas sociais e ao mesmo tempo não são capazes de discutir com veemência o orçamento do salário e das regalias dos políticos. Gritam quando tentam restaurar a cultura do país, mas ignoram os salários e auxílios de juízes e outros. Seguem firmes no ódio por apenas um partido político, juntando forças para golpear cada vez mais baixo, enquanto a corrupção deslavada e escancarada dos demais partidos toma conta do poder público, pisoteando inclusive a constituição.

Que os céus realmente protejam estas pessoas cheias de ódio para que elas e os seus nunca precisem de nada que seja público. Que suas artes, saúde, seus trabalhos, seus lares, tudo, sempre estejam bem e nada lhes falte.

Ódio nunca foi solução e utilizar a desculpa do “eu nunca” com este sentimento mesquinho, só faz cavar a cada dia um fosso mais profundo entre os ideais de um povo que antes era conhecido por sua inegável cordialidade.

Mas, tristeza me obriga a admitir, o ódio dividiu o país. O ódio de alguns por um único partido político destruiu a grande virtude de um país inteiro. O que será capaz de corrigir este ódio, só o tempo dirá. Espero sinceramente que os danos que começam a ser feitos e que enfrentaremos no futuro, não sejam tão profundos que não possam ser revistos e corrigidos. E espero que os que hoje vivem deste ódio infame possam um dia se perdoar pelo grande mal que estão fazendo ao país e a tantos dos seus cidadãos.

Você pode gostar também de

Sem comentários

deixe uma resposta