Contos e crônicas

MOINHOS DE VENTO, INJUSTIÇAS, CANSAÇO E O FUTURO INCERTO

Começando pelo fim: Se todos os que vêm lutando contra a verdadeira corrupção, sem usar a máscara hipócrita que ódio desenfreado inflige a alguns…. Se todos os que estiverem batalhando por uma justiça lídima e pela verdade…. Se todas estas pessoas corajosas de repente ficarem cansadas e resolverem cessar a guerra contra aqueles que estão usurpando os direitos populares há mais tempo que se percebe, o que será do futuro do país que antes já foi só promessa de um futuro brilhante?

Observo a luta faz tempo. Pessoas de todas as áreas profissionais, gente inteligente e com espírito aberto que têm se dedicado a combater com garra a corrupção que vem corroendo o país. Mas eles não estão combatendo a corrupção que se vê apenas na superfície, combatem sim, aquela que está profundamente incrustrada até os meandros menos suspeitos da política, da justiça e da sociedade brasileira já há tantas décadas que poucos percebem como tal.

Vejo o quanto estas pessoas têm se dedicado a apontar os caminhos para que outros possam ver, com seus próprios olhos, coisas mesmo inimagináveis em termos de injustiça, parcialidade, incompetência e crimes contra cidadãos e a nação. Eu sou agradecida a todos eles, estes batalhadores solitários, porque graças a eles sou mais uma a enxergar com clareza a putrefação que toma conta dos bastidores do meu país.

No entanto, e isto é espantoso, permanecem com olhos fixos e hipnotizados frente à televisão e aos jornais de sempre, tanto quanto a velhos e desgastados políticos corrompidos até os ossos, pessoas que normalmente eu imaginaria mais esclarecidas. Pois não são. Ao invés disto, destilam palavras que traduzem um ódio muito violento e profundo, do qual não escapam as minorias, os benefícios por elas recebidos ou o que conseguiram fazer a partir dos mesmos. Gente que clama pela ditadura militar e não enxerga na ponta do próprio nariz a ditadura midiática que já vem acontecendo. Gente que se posiciona contra a corrupção de forma seletiva e injusta, esquecendo de aí colocar o principal, que é igualdade de direitos e deveres.

No início deste ano fiz muita pesquisa para a edição de março da revista Varal do Brasil que trouxe depois o tema Mulher. Nestas pesquisas uma das coisas que mais me assustou foi o fato de encontrar muitas, mas muitas mesmo, mulheres machistas. Sim, mulheres machistas existem, elas são em número estarrecedor e é graças a elas que podemos ler comentários e textos que rebaixam a mulher e a situação desta na sociedade. Agem como se não usufruíssem de direitos conquistados a duras penas por mulheres destemidas que foram à luta em todos os campos e venceram. Estas mulheres, que provavelmente são provenientes do mundo feminino mencionado pelo presidente interino, não tem um pingo de empatia pelas demais e nem se esforçam em demonstrar o contrário.

Assim como esta gente feminina que prega o desprezo das demais, vejo também o número assustador de jovens, garotos e garotas de menos de trinta anos, engajados numa luta feroz pela extrema direita, eles também anunciadores de uma ditadura fortemente desejada, embora nenhum deles tenha o menor embasamento para a compreensão do que seja uma ditadura. Jovens que se aliam a políticos alienados pelo ódio e que incitam à invalidação dos direitos sociais concedidos às minorias, assim como ao preconceito devastador contra estas mesmas minorias.

Outro ponto bastante negativo, digo mesmo negativo ao extremo, a ascensão da religião evangélica na política. Cada cidadão é livre para ter sua religião e praticá-la como bem lhe fizer. Mas longe, bem longe da representação popular municipal, estadual ou federal. Bem longe do executivo e do judiciário. Religião não pode, em nenhum caso, ter poder de palavra e ação dentro do país. Mas aqui eu sou obrigada a mudar o tempo do verbo: não poderia. Não deveria. Mas tem. E usa. A igreja evangélica tem hoje o que já é falado comumente pela própria população, a “bancada evangélica”. E com o poder que adquiriram, chegaram agora também aos ministérios e secretarias mais influentes do país, já prometendo mudanças “cristãs” nos hábitos sociais, culturais e trabalhistas dos indivíduos. Sem deixar de comentar o fato que a influência destes bispos e outros, ultrapassa o entendimento, já que são seguidos cegamente pelos que são do mesmo credo e mesmo pelos que não são. O estado, que deveria ser laico, perde a cada dia esta qualidade e se perde numa fé de fachada, onde o poder e o dinheiro são os verdadeiros motores.

Voltando ao início e agora finalizando, concluo que esta guerra é não só cansativa, mas triste. É uma guerra com gosto de velho, que remete ao sistema nazista, que tem fortes tons de fascismo e que parece estar tomando os indivíduos e deles fazendo zumbis. A luta dos que corajosamente ainda permanecem em pé contra tudo isto, é forçosamente injusta e aparenta-se à luta do cavaleiro contra seus moinhos de vento.

Diante do futuro incerto que se prevê para a nação, restaria talvez deixar acontecer o que tantos estão praticamente implorando para que aconteça: que sejam destruídos mais e mais projetos sociais, culturais e trabalhistas, tudo dentro de um esquema sórdido de vingança e ódio. Deixar acontecer talvez seja sim, o melhor a fazer. Não que o sofrimento dos mais desprovidos não vá nos fazer muito mal. Não que ver nosso país retroceder no tempo e em seus direitos, não nos deixe a cada dia mais perplexos. Mas, deixar que realizem seus desejos mórbidos para que desta forma possam, em breve, ficar face a face consigo mesmos e com a situação que eles mesmos causaram.

“Cuidado com o que pedires, os céus poderão te atender. ”

Talvez os batalhadores destemidos que há meses e meses vêm lutando, devessem se dar esta trégua, aproveitando o tempo para descansar. Talvez devessem deixar que a máxima acima se executasse. Porque certas pessoas merecem a queda e o tombo. E depois então, já restabelecidos do cansaço, quem sabe estender a mão aos odiadores que estarão no fundo do poço, retirando-os de lá com a esperança que tenham aprendido que só o amor e a união permitem uma visão clara de tudo e são fortes o suficiente para vencer as guerras mais injustas.

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