Contos e crônicas

HONESTIDADE: DA LEGITIMIDADE E SUCESSO DO SEU CONTRÁRIO

 

Tenho pensado muito na questão da honestidade e no que nos resta de seus valores, não somente porque a atualidade política remete diretamente ao assunto, mas também porque observo que em todos os setores da nossa sociedade atual é o que tem acontecido: a desonestidade está em alta, virou coisa comum e é até mesmo sinônimo do sucesso de muitos. A desonestidade tem hoje um tal charme que, como dir-se-ia antigamente, adquiriu aspectos nobres para seus adeptos.

Triste fato a constatar, a legitimidade concedida à falta de honestidade pelas pessoas que compõem nossa sociedade é grande, no limite da estranheza para quem insiste em combater ou não conviver com a desonestidade. Difícil de compreender e de aceitar, a falta de honradez é hoje mais popular do que se imagina.

Assim, vemos a ascendência dos personagens de filmes e séries de televisão, onde o personagem mau-caráter torna-se rapidamente o favorito do público, que passa a torcer por ele e por sua vitória nas histórias narradas. E assistimos, pávidos, o engrandecimento e a subida ao poder do personagem político que garante seus votos para a próxima eleição agindo com a categoria de um ladrão de casacas, com falcatruas comprovadas, e que ainda assim recebe apoio popular para suas ações.

Não consigo perceber com clareza se há má fé ou muita inocência ou ainda conivência, nos que justificam a desonestidade (ou a aceitam sem questionamentos) ou se é a desonestidade que virou um conceito abstrato ao ponto de não despertar mais o interesse de ninguém.

O desonesto hoje não é puramente o sujeito mal-encarado, malvestido ou mal posicionado socialmente e que desperta imediatamente a dúvida do cidadão comum quanto à sua idoneidade, além de levá-lo, obviamente, à exclusão e marginalização. Este tipo falado aqui é comumente chamado de bandido, pertence à classe pobre e em geral rouba para comer ou por outro tipo de, podemos dizer, necessidade material. É o bandido que, se oportunidade a justiça tiver, por ela será encarcerado e esquecido na prisão. Para este tipo de marginal não há debate em grandes instâncias: o que ele faz é mau. O que ele faz o torna mau. Desta forma, cadeia é pouco. Se houver a menor oportunidade, será morto, eliminando-se assim de vez o problema.

O desonesto do qual falo no título desta crônica é o sujeito bem-apessoado, bem vestido e, em geral, bem posicionado. Ele (ou ela, que aqui serei sempre genérica), é a pessoa que apesar do mau-caratismo, das concludentes provas de suas más ações, ainda carrega consigo o respeito (respeito!) de grande parte da sociedade, sendo alguém que goza de total liberdade de palavra e de ação. O desonesto de hoje faz e acontece (sempre em benefício próprio) e é até mesmo venerado.

Podemos falar deste desonesto padrão a começar pela política. Ele existe numa quantidade absurda de representantes populares no executivo e no legislativo ao ponto de desaparecer, tornar-se tão comum que ninguém mais reconhece ou quer reconhecê-lo. Mas também no terceiro poder da nação eles abundam, fazendo do judiciário um outro palco de artimanhas notórias.

Não fiquemos tão somente nos três poderes da pátria-mãe, que a desonestidade faz seu ninho por todos os meandros sociais. A mídia já perdeu-se nela há muito tempo. De forma geral, não é mais confiável, exerce uma verdadeira ditadura no meio televisivo e jornalístico, apresentando um conjunto de meios de comunicação que servem o senhor da desinformação com mais mérito do que teriam se exercessem suas profissões com honestidade, mostrando a veracidade dos fatos sem neles inserir o interesse próprio, este último incluindo os interesses verdadeiros: o poder e o dinheiro.

Na religião, como na política, a desonestidade também vive à galope. Não pagam impostos à nação e isto é visto como normal. Recebem dinheiro de fiéis, patrocinadores e representantes públicos e tudo se passa na maior normalidade. Absolvem-se de crimes cometidos como se para isso tivessem legitimidade. E acabam tendo, já que ninguém faz nada.

No meu próprio meio de trabalho, a literatura, a desonestidade já fez morada, desonestos têm proliferado como insetos repulsivos e, no entanto, os piores são os que são mais bem vistos. Mercenários literários, que usam e abusam de falsos títulos e falsas circunstâncias para amealhar quem possam manipular, estes indivíduos interesseiros e gananciosos que nada ou pouco querem fazer realmente pela literatura, vão enchendo os bolsos de dinheiro às custas daqueles que aceitam o oferecido e reverenciam as fardas, os títulos, diplomas e eventos sem objetivos verdadeiramente literários.

A desonestidade que acompanha o cidadão desde seu cotidiano, quando ele comete pequenas e médias infrações que nem mesmo são consideradas por ele como erradas, segue-o na convivência comunitária onde o hábito de levar vantagem em tudo já se tornou um comportamento social aceito pela maioria e considerado normal.

A impunidade, do cidadão comum que vive dando jeitinhos ao seu representante municipal, estadual ou federal que “rouba, mas faz”; a imunidade do religioso que flerta mais com os pecados capitais do que com a santidade; a impunidade nas diversas profissões e ações sociais que desmerece os verdadeiros profissionais… Tanta impunidade acabou por mitificar os estelionatários, os ladrões, os mentirosos, os cafajestes e até mesmo assassinos. Enfim, os piores entre os piores que em determinadas épocas e em outras circunstâncias, eram sinônimo de vergonha máxima e dignos das mais duras punições, hoje são respeitados e considerados dignos.

Ser desonesto praticamente virou uma simbologia de sucesso, já que o que se vê nos cinemas, na televisão e na vida real é o apogeu da indecência, da imoralidade e do crime sem punição. Não ser punido é vitória dos criminosos e dos que por ele manifestam predileção.

O político desonesto comanda uma câmara de deputados e depõe a partir dos bastidores e da tribuna pública, uma presidente da república eleita, tendo todo apoio da população. O juiz desonesto processa uma policial justa por tê-lo descoberto em infração e recebe para isto o apoio de seus pares e aval de muitos cidadãos. O religioso desonesto tira dos pobres, enriquece sem peso na consciência e ainda é reverenciado por eles. O editor/agente/produtor literário, engana escritores e, em seus embustes, enriquece e ganha nome, prestígio e dinheiro. Vamos resumir e dizer que sim, em todas as profissões e em todos os setores sociais, a desonestidade é a estrela que brilha e se destaca.

Definitivamente, a desonestidade está alcançando, se já não alcançou, o glamour e a legitimidade necessários para permanecer no topo da ascensão social e a este topo levar todos os que agirem em consequência.

O que muitos não estão vendo é bem possível que seja uma espécie de monstro com múltiplas cabeças que está engolindo tudo a sua volta. Se a gente insistir em não ver, talvez um dia, ao abrir os olhos, iremos nos deparar com um mundo onde você não se reconhecerá mais.

Uma sociedade onde na prisão estarão os honestos, incapazes de transgredir leis em benefício próprio ou de passar por cima de outras pessoas para sua mais-valia. Eles estarão presos e não terão sequer o benefício da dúvida para se defender de seus supostos crimes.

Acusando, prendendo, julgando e condenando estarão os desonestos. Porque eles estarão munidos da confiança do povo, do dinheiro dos grandes investidores privados e da canalhice que lhes é tão peculiar.

Papéis invertidos, a sociedade terá em seu interior uma nova e especial ditadura que será aquela onde ninguém que não seja corrupto o suficiente poderá permanecer em liberdade, atuando e exercendo alguma função útil.

Bem-vindos ao admirável mundo novo!

Imagem by Tristan Schmurr

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