Contos e crônicas

A INVISIBILIDADE DO SER

Falando de uma pessoa, em geral lembramos de sua fisionomia, talvez do nome também. Algumas vezes, inversamente, lembramos do nome sem ter na memória os traços de quem lembramos. Mas isto é muito comum, são jogos de esconde-esconde que a mente traz à tona sempre que recordações entram em campo.

Existe também uma terceira opção, mas desta não é tão simples falar: há pessoas que são invisíveis. Elas um dia passaram por nós, talvez tenham até entrado em nossa vida por algum motivo, permanecido um tempo e saído por outros motivos ou pelos mesmos que as fizeram chegar. No entanto, nada ficou para que pudessem ser lembradas. A fisionomia passe-partout, daquelas que de tão comuns chegam a ser ordinárias, não ficaram presentes. Nenhuma palavra importante, nenhuma atitude relevante. Nada de contundente. Seres sem histórias que passam tão despercebidos que não precisam sequer serem esquecidos.

A invisibilidade de um ser é algo que não afeta ninguém mais do que aquele que o é. E isto, quando o mesmo percebe sua invisibilidade. Quando se dá conta que, por mais que faça ou diga, nada lhe faz pesar na balança. Entra numa vida e sai sem ser notado. Poderia ser chamado de discreto, mas discrição é uma qualidade na grande maioria das vezes e o ser invisível nem precisa ser comedido. A transparência lhe confere mais desvantagens do que a reserva ou a prudência lhe seriam de serventia.

O ser invisível não se verá no jornal por glórias ou misérias e nem na vida e nem na morte verá seu nome anunciado. Passará, brancas nuvens pelo céu límpido, sem chover uma gota sequer até dissolver-se no ar. Não viverá nem mesmo o desprazer. Não conseguirá ser desagradável, reclamar de um lugar inóspito ou de um companheiro implacável. No limbo da vida, não alcançará o céu mesmo com orações e não descerá ao inferno ainda que desobedeça todas as leis humanas e celestes.

Haverá, no entanto, uma certeza, embora cruel, para todo ser invisível: a certeza da não existência, da não permanência, do não pertencimento. A certeza infame do desprezo que a vida lhe dedicará minuto após minuto, ano após ano, até o fim. E no fim, nada acontecerá. As luzes simplesmente apagarão.

A invisibilidade garantirá ao ser o anonimato. E o anonimato assegurará o abandono. Quando tudo tiver terminado, seu corpo que nunca foi visto a olho nu, será enterrado e esquecido. Será tudo.

 

Imagem by Jukka Palmu

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