Contos e crônicas

VERMELHO: DE IDEOLOGIA À APOLOGIA, A COR MALDITA PELO ÓDIO

Não. Decididamente não dá para não falar a respeito. Não tenho partido político, mas tenho um senso apurado de amor ao próximo e respeito da existência do outro. Este último parece ter desaparecido das pessoas mais sensatas.
São casos atrás de casos de agressões físicas, verbais e escritas simplesmente por causa da cor vermelha. Como se esta cor fosse propriedade exclusiva da política. Me choca a falta de discernimento e o enorme ódio dirigido a uma cor, mais do que a uma ideologia.
Ruivas e ruivos, cuidado: em breve seus cabelos provocarão a ira!
Chapeuzinho Vermelho deverá ter sua leitura proibida também em breve!
Rosas, cuidado! Encolham-se nos jardins se vocês forem vermelhas!
Viajando para o Brasil dentro de três dias, fui aconselhada a não levar comigo “roupas e acessórios vermelhos”. O risco é grande, ouvi. Estão batendo sem perguntar, ouvi em seguida.
Sempre achei saudável a discussão das opiniões e aprecio, muito, ler e ouvir diversos pontos de vista sobre as mesmas questões. Coisa de não ter meu pensamento bitolado, preso ou guiado por uma linha de um só pensamento. Lá no Facebook, por exemplo, tenho amigos que pensam bem diferente uns dos outros. Se não estão empoderados pelo ódio, leio sempre o que escrevem, leio para entender suas opiniões. Me apraz a diversidade porque nela geralmente se encontra um consenso, ou, na melhor das hipóteses, um certo bom senso.
Mas estou, sincera e realmente, apavorada com a grandeza e proporção do ódio que está ganhando terreno entre pessoas normalmente bastante civilizadas e educadas.
Acabo de ler o depoimento de uma jovem que está com medo de andar de bicicleta porque sua bicicleta, comprada há meses, é vermelha! Isto não deveria existir. Não num mundo normal.
Tenho lido também gritos de guerra assustadores, todos dirigidos aos que usam o vermelho, como se usar vermelho fosse um tipo de confissão de culpa qualquer.
Bem, será uma nova ditadura de uso das cores? Ou você se veste conforme a política exige ou está supostamente sendo partidário?
Que faço eu que tenho casaco, blusas, sapatos, bolsas, brincos…. vermelhos? Sou também comunista, anarquista ou seja lá o que passa na cabeça destes fundamentalistas ferozes?
Nem perco mais meu tempo pedindo mais amor e paz. Os ouvidos estão surdos e as bocas e canetas estão de uma violência extrema.
Lá vou eu viajar para o Brasil neste momento de profunda crise, consciente das dificuldades para se ajeitar um país quebrado ao meio, onde metade da população quer uma coisa e a outra metade quer outra. Cada metade com suas devidas justificativas para guardar ou depor a presidente. E não falem em corrupção, que esta já passou de moda, ninguém engana mais ninguém, não estão mais atrás de corruptos (já que eles estão em todos os partidos e a justiça não os enxerga a todos).
E vou inconformada com o ódio. Completamente inconformada com esta emoção doente e triste que tomou conta de uma parte da população.
Espero não ter o desgosto de presenciar cenas violentas contra pessoas ou animais que tragam vermelho em suas vestimentas, bicicletas ou outros. E espero também não ser vítima de fúria no caso de eu esquecer as diretrizes dos odiadores e sair de uma sapataria com um belo par de sandálias vermelhas.

Um exemplo do que vem acontecendo:

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Violência sem razão!

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