Contos e crônicas

TEMPO DE SEMEAR

Caminhando fui deixando mundos para trás. Mundos em que pensei viver para sempre. Pelo menos alguns. Cenários de vida perfeita que se mostraram volúveis, vagos, incorretos. Pessoas foram também ficando para trás. Algumas foram se distanciando sem querer, outras eu mesma quis, outras mais foram aquelas que partiram definitivamente.

Durante a caminhada me acontece relembrar fatos, lugares e pessoas. Rever nas lembranças o que considero bom, de preferência. Mas, inevitável que no meio de tudo apareçam também momentos que eu apagaria com a maior boa vontade da mente e do coração. Não, não é o caso de arrependimentos. É outra coisa, tipo não ter mais nada a ver comigo e me fazer inclusive perguntar a mim mesma: o que? como? Mas até aí é a vida. E este tipo de coisa acontece com mais frequência do que se imagina.

E tem aquilo que quando a gente lembra dá uma vontade doida de gritar: volta!! Volta!! Só pra ver se dando uma de doida o universo resolve dar de novo aquilo pra gente. Eu sei, eu sei que é besteira… Mas disto também se vive. Alivia para dar continuidade ao caminho.

Quando penso assim, em tudo o que foi bom e ruim nestes mundos pelos quais passei, vem também ao pensamento tudo o que construí, as bases sólidas de muitos projetos que espalhei por aí. É um hábito já: espalho sementes, rego e, quando estão crescendo, deixo para o mundo os frutos. Este é o retrato mesmo da minha vida. Em algum ponto até estranho, mas real. Porque a fertilidade que me habita não consegue conceber apenas para si. Se não posso doar, não faz parte de minha existência.

Em algum ponto vou parar. Dar um tempo. Como já fiz tantas vezes. E daí aproveitar o tempo para percorrer o caminho com outros olhos que os de quem semeia: vou me dar ao luxo de admirar a paisagem, abraçar pessoas e sonhar com o céu. Que em algum lugar desse caminho estará o mundo que me verá ficar.

 

Imagem Spiker

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