Contos e crônicas

PECADOS

Pecados, pecados… O que seria dos vãos mortais se não existissem os pecados? O que fariam os crédulos se não pudessem se apavorar diante dos pecados? Mas…

Quem define o pecado? O que define o pecado? O que qualifica ou quantifica um chamado pecado?

Para começar, pecado é já um nome estranho com uma definição bem estranha que estabelece uma violação às leis religiosas. Leis estas que, aos poucos, foram virando sociais para comportamentos estabelecidos dentro de uma normalidade que ninguém mais sabe onde e porque começou a ser assim. O normal tornou-se algo ditado através da invenção humana e de seu desejo de controle desmedido do comportamento do outro. Uma maneira segura de fazer com que todos sejam ovelhas e que lobos sejam proscritos. Figuração estranha. Tão estranha quanto a normalidade.

Então, sair deste esquema é pecado. Pequeno e perdoável, médio e reembolsável ou imenso e desta forma, inafiançável. Pecadores são marginais que fogem das regras sociais e se aventuram além dos muros impostos por religiões (que a espiritualidade, ela, não marginaliza ninguém).

Criaturas consideradas vis, os pecadores devem ao mundo arrependimento e penitência. Devem satisfações e desembaraço de suas consciências. Têm a obrigação de mudar, de se encaixar e de portar, para sempre, mesmo depois do dito perdão, a tarja de ex-pecadores em suas testas. Mesmo perdoados, serão sempre pecadores.

Não é aqui que vou enveredar pelo caminho da perversidade, dos crimes e da violência. Aqui não está em pauta a desumanidade e nem a psicopatia ou sociopatia. Não estou falando do abominável e nem discutindo a maldade em seu estado mais puro e que frequenta a humanidade desde os tempos primordiais.

Falo do pecado, original ou adaptado, que a sociedade insiste em colar em pessoas que fogem dos rebanhos e alçam voos porque se dão conta que possuem asas! Falo daqueles que cansaram de obedecer a um canal de televisão, a um chefe religioso ou simplesmente a certas convenções que há muito perderam a noção de realidade.

Os pecadores dentro destes parâmetros não precisam ser perdoados e nem precisam ser curados ou proscritos. Não precisam nem mesmo de compreensão. A questão atual e verdadeira é somente aquela que impõe uma reavaliação do esquema do pecado, do errado, do certo e do que é absurdo.

Ninguém precisa apoiar o que não crê e nem sair de braços dados com ideias que não fazem parte de seu universo. Mas já é tempo de enxergar o óbvio: o mundo mudou. Pessoas estão normalizando suas vidas e a de seus próximos baseadas em vivências. Ninguém quer mais a ditadura social.

Afinal, e no final, mesmo que muitos ainda não tenham percebido, sociedade é composta por gente de carne e osso e gente não tem rótulos e não precisa viver uniformizada emocional e mentalmente para satisfazer a outrem. Gente é coração e identidade, muitas e diferentes identidades.

E se a gente vivesse longe dos pecados? E se a gente usasse como parâmetro maior de vida o respeito (gosto de respeito, acho tolerância outra palavra muito estranha!) e a aceitação de que cada um é único e tem todo o direito de viver como deseja?

Eu viveria bem num mundo assim, livre dos pecados e dos inquisidores.

Você pode gostar também de

Sem comentários

deixe uma resposta