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PODER CHORAR

No dia a dia da vida, ao longo dos anos, vai-se caminhando sempre em frente, sempre em frente, poucas vezes parando para uma respiração mais profunda. Segue-se o destino à risca, fingindo de vez em quando mudá-lo, fazendo curvas e peripécias que poderiam efetivamente tudo mudar, não fosse a inexorabilidade do mesmo. Aprende-se a amar a rotina, as manhãs e as noites, fingindo que cada uma delas é uma surpresa. Ou que poderia ser.

Passam-se assim horas e anos. Horas dentro dos anos e anos dentro das horas. E em tudo, as únicas coisas que se transformam realmente são o corpo e o coração. O corpo que se curva lentamente diante da fatídica senda e da inquietação que não o abandona. O coração, atristado, penalizado por tudo o que foi sonhado e jamais realizado, bate sem cantar.

Mas um dia a pausa se faz. Por querer ou sem querer. No meio da estrada a pausa acontece. Para o destino, em sua crueldade tão natural, é imprescindível que paremos para sentir sua força. Minutos que sejam, apenas para que seja possível compreender o quanto é tarde. E entender que, finalmente, não havia outra estrada paralela que levasse a outro lugar, fossem quais fossem as escolhas.

Ali, parados e à espera de poder seguir, tudo aflora. A dor, a agonia, as raivas profundas, os medos perdidos, o cansaço de tanto e tudo. Neste instante, o que alivia e esvazia o coração são as lágrimas. Não as lágrimas choradas ao longo do caminho, mas aquelas que sobem do mais profundo do ser, aquelas que têm o poder de lavar a alma.

Poder chorar é quase se libertar. Não do destino, que ele segue impune. Mas liberdade em relação ao que foi deixado em algum canto de nós e que jamais viu a luz. Poder chorar é nosso prêmio por ter conseguido viver. Prêmio de consolação, certamente, mas ainda um prêmio.

Para depois levantar e continuar. Não há tempo para pausas longas. O destino espera. E a gente precisa ir.

 

Imagem by Dieter G

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