Contos e crônicas

AS VÉSPERAS

Vésperas são aqueles dias que não acontecem. Dias que ficam na porta esperando pelo que virá. Ou poderia vir. São ameaças. Nas vésperas moram todas as esperanças, agonias, ansiedades. Nelas em tudo se crê. Festeja-se mesmo a antecipação. Estes dias que prenunciam algo, que se sentem donos do que vai acontecer dali a pouco. Na véspera, todos se preparam. Na véspera, todos já estão à espera. Seriam as vésperas melhores do que os dias prenunciados de fato? O interessante é que elas é que são as mais animadas: véspera do Natal (a ceia, a festa); véspera de Páscoa (a aleluia!). Vésperas prometem sem saber se vão cumprir. Coisas boas ou não. Porque também existem as vésperas desconhecidas, aquelas que não sabíamos vésperas até acontecer, até chegar o dia. Só depois, memórias povoando a mente, falamos sobre a véspera. De sua importância. Do que ela anunciava e não havíamos percebido. Um erro, um esquecimento, uma partida. Vésperas têm cara de passado antes mesmo de serem presente. Sejam dias de angústia ou de alegria, elas nos mostram o caminho. Na véspera da viagem, preparara a mala. Na véspera de seu aniversário, não recebia parabéns de ninguém por pura superstição. Na véspera, beijou seu rosto e sorriu, sem falar em despedida. Na véspera, dormiram em casas separadas para só se verem na hora do casamento. Na véspera, vira os presentes sob a árvore que seriam abertos pela manhã. Na véspera de sua morte, estávamos tão bem que esquecemos a dor. Na véspera da festa, ela comprou o vestido que marcaria aquele encontro. Na véspera das provas, estudou como um louco. Na véspera da execução, o condenado ainda não pedira perdão. Na véspera, dormira como um bebê. Na véspera esqueceu a panela no fogo, distraída que estava pelo que viria amanhã. Na véspera, preparou a corda e escreveu o bilhete. Na véspera, sentira dores fortes, mas não pensara que já era hora da criança chegar. Na véspera, fez todas as promessas impensáveis que a conduziriam até ele. Na véspera, tivera um sonho premonitório. Na véspera, jantara com os amigos de longa data. Na véspera, seu estômago borbulhava tanto que a fazia sofrer de aflição. E porque as vésperas não são essenciais para ninguém até o dia seguinte chegar, elas permanecem lá, na esquina da vida. Depois, antes de serem esquecidas as razões do dia que as seguem, serão lembradas as vésperas. Porque nelas estarão todas as explanações que nunca foram buscadas.

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