Contos e crônicas

COISAS DAS QUAIS NÃO SE FALA…

Existem coisas que sobre as quais não se fala. Falar de paixão, por exemplo. A gente fala de amor. Do amor humano, o condicional e o incondicional. Porque o amor vem cheio de coisas cor de rosa, rosa pálido, rosa claro, rosa velho. O amor é cor de rosa, tem perfume de rosas (alguns espinhos também). Mas de paixão, não. Este assunto é melhor evitar. Fale-se de medo, de raiva, de saudades, de amizade. Mas não se fale de paixão. Porquê paixão, só para começar, já vem censurada pelo sistema que condena emoções volúveis e voluptuosas. Falar de paixão é comprar briga. Com o coração, que não quer perder seu ritmo, não quer sair batendo desvairado, desregulado e completamente sem noção. E os pensamentos, então? Não, paixão para os pensamentos não… Eles se perdem. Ficam desconectados, saem da realidade e permanecem indubitavelmente num campo que mais pertence ao delírio que qualquer outra coisa. Continuemos a falar de amor que este apazígua, dá sensação de bem-estar, é bálsamo para as feridas da vida. Feridas… Sim, logo vem novamente a questão, pois feridas… Elas são tantas vezes causadas pela paixão! A paixão que trai o olhar, morde os lábios, seca a garganta, treme o corpo e engole a voz. Não se pode ficar falando de um sentimento destes, que corrompe o comportamento, levando a atitudes temerárias, equivocadas, provocadoras. Paixão que é paixão chega, vai mandando e não diz quando vai embora: Me aguente! E haja calor, frio, calafrios, agonia. Intensidade é uma palavra muito pequena para ajudar a descrever. Ah, e quem quer descrever? Quem quer perder tempo descrevendo e falando de paixão? Melhor silenciar. Melhor deixar pra lá. Amor é mais seguro, bom de papo, a gente pode contar para qualquer um, todo mundo entende o amor. Mas paixão… o mínimo que se pode dizer é que paixão é dificilmente compreendida. Esta loucura que invade os sentidos e enfrenta os medos, retira as máscaras e concede uma liberdade que não queremos. Amor é sentimento de gente séria, que pensa em compromisso, sabe manter um compromisso, tem jeito para guardar lembranças no coração e carinho nas mãos. Paixão? É coisa de gente impudente, um atrevimento da vida que agarra o ser e faz dele um reino de festas ateu e pleno da indecência que o amor nunca suportaria. O mesmo amor que busca reciprocidade, que tateia o outro em busca de si mesmo. O amor é feito para dois, amor é o nós. Não cabe mais nada e nem ninguém e é para sempre. Aliás, para sempre é coisa do amor. Paixão não tem conhecimento do mútuo, não tem castelo e nem senhor. Paixão é para ontem. Para já. Não há interrogações ou amanhã. Quando eu digo que há coisas que não se diz… Falemos de amor. Voltemos às saudades. Vamos sucumbir às boas recordações. Esqueçamos a paixão. Nada de sucumbir a esta louca que sabe tão bem dilacerar os corações. Paixão tem este costume: despedaça corações depois de usá-los e os abandona ao léu. Que venha o amor depois para tudo remendar! Então, vamos combinar: não falemos de paixão. Sejamos pessoas coerentes, a normalidade agradecerá. E quem se importa se depois tudo ficar igual, morno e cor de rosa? Ao menos haverá paz e o coração estará seguro. E façamos como se nunca tivéssemos ouvido falar de outro sentimento, assim menos ameno, mais vermelho e menos recomendável. Continuemos, a vida não pode parar para ver passar sentimentos desenfreados…

 

imagem by Elido Turco

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