Contos e crônicas

OS COMOS E OS PORQUÊS DE ESCREVER: LIBERTANDO A CRIAÇÃO!

Cada pessoa que escreve tem seus motivos para escrever. Eu escrevo porque preciso da escrita para viver. Assim como respirar, comer, beber água. Aliás, bem isto: beber água! Não escrever me dá tanta sede, mas tanta sede, que chego a sentir a garganta ressecar, o coração ficar agoniado. Escrevendo, transpiro.

Preciso escrever para continuar viva. Largando de mim emoções guardadas ou descrevendo emoções que nunca vivi. Sim, isto também acontece e com muito mais frequência do que poderia ser dito. A pessoa que escreve tem aquela licença poética, aquele “quê” sentimental que lhe permite sair por aí pela vida “roubando identidades” emocionais, se apoderando das emoções alheias para transfazê-las, levando ao papel e depois ao leitor o que talvez quem estivesse verdadeiramente sentindo ou jamais pudesse expressar. São os arroubos da escrita!

Reservo-me o direito de não contar tais pecados para não cair na realidade que assolaria meu íntimo, daria aos meus textos faces obscuras e retiraria deles o sentido primeiro que é fazer com que aquele que os lê possa interpretar da sua maneira, sem que seja eu que tudo explique, tudo diga, tudo entregue. No papel eu já confesso os meus pecados e os pecados de outrem. Liberto os meus sentimentos e os sentimentos do outro. Lavo a nossa alma profundamente em águas oceânicas. Algumas vezes em lavas vulcânicas. Conduzo corações por trilhas estreitas, resgato náufragos de solidões e paixões dissimuladas sob faces felizes.

Amealhar emoções alheias é tão antigo quanto o mundo. Se todos que escreveram até hoje e todos que escrevem ainda hoje fossem escrever somente baseados em suas experiências e emoções, não teríamos, provavelmente, certos clássicos que nos embalaram a juventude e cultivam em nós até a atualidade a curiosidade das descobertas e a crença em verdadeiras maravilhas. Não se pode negar aos que tiveram a coragem de arrancar de dentro deles mesmos as flores e os espinhos, que seus legados foram fenomenais. Mas fale primeiro aquele que tudo souber: onde está a verdade? Que escritor realmente tudo viveu, qual o que muito inventou?

Como leitora assídua que sou, tenho grande paixão por livros. Leio de tudo, sou eclética no verdadeiro sentido da palavra. Já li, é bem verdade, muito mais do que leio hoje. Antes, lia tudo o que me caía nas mãos, fosse o gênero que fosse, o autor que fosse. Ávida, devorava os livros e muitas vezes, mais de uma vez o mesmo livro. Hoje, sou mais seletiva. Escolho quem eu quero ler e o porquê quero aquela leitura. E a escolha sempre será vasta, tantos são os escritores fantásticos que nos deixaram obras imortais e os novos que todos os dias vão surgindo! Obras: creio eu que a ambição de todo escritor é um dia poder chamar algo seu de “obra”. Ou melhor ainda, ouvir de alguém que o que escreveu é uma “obra”…

Ler, ler, ler, para cada vez mais escrever. Assim funciona o mecanismo de um escritor. Porque escritor que não lê, que vive única e exclusivamente dentro de seu universo, recluso em sua própria vida, jamais saberá o que há por trás dos horizontes que lhe cercam. Imaginar somente não basta… Viver é uma necessidade e conhecer a realidade de outros é fundamental para exercitar a própria vida.

Sou uma pessoa descompromissada de gêneros e estilos. Gosto de escrever praticamente todos os gêneros. Quanto ao estilo, creio que aos poucos fui criando o que posso chamar de “meu estilo” e que já foi até comentado por um crítico e por estudantes de Literatura. Aliás, saber que eu “tinha” um estilo, foi algo que me assustou e marcou.

Mas é bem assim… Num dia tudo para mim é poesia. Rimo a vida, faço versos com tudo. Em outros dias, execro as rimas e me abando às crônicas e a contar histórias reais ou imaginárias. Cada ser humano é para mim um espelho cujo reflexo me conta histórias ou se declina em poesias…

Perco ideias que imagino fossem criações inovadoras, coisas instintivas que me vêm à cabeça no meio da noite, na rua, no meio de uma boa conversa…. Perco muitas destas. Certas vezes por falta de uma caneta por perto, noutras por não poder interromper o que estou fazendo, noutras ainda por pura falta de vontade de dar vazão às inspirações caóticas. Gosto de ordem. Ordem nos pensamentos e em tudo em geral.

Não escrevo para “musos” ou “musas” inspiradores (as). Minha inspiração não comporta um só ser. Me definindo eu já utilizaria o termo “nós” de tantas facetas que costumo encontrar dentro de mim. Desta forma, com todas as vozes e corações que tenho, não poderia, não seria lógico, ter fixação por pessoas na hora de escrever, únicas que sejam elas. Diria, de uma forma bem aquariana, que o mundo é minha inspiração. E que gosto de traduzir a linguagem emocional do mundo que percebo com meu olhar e meus sentimentos.

Pratico a arte de existir plenamente naquilo que mais amo: escrever. E exercito a escrita experimentando, como quando se prepara um bom prato. Pitadas de tudo: sal, açúcar, pimenta… Eu tempero meus textos com o que me dá vontade e deixo que saiam de mim sem um sabor pré-concebido. Aventuras.

Sonhos, pesadelos, o cotidiano, um barulho sem nexo, a urbanidade das ruas, um olhar qualquer, uma lembrança remota, um “se” que se insinua, uma dor que não parte, uma ferida entreaberta, saudades, medos, loucuras, solidão de um dia ou de uma vida… Uma criança, um jovem, um velho… O céu azul, cinza, nublado… O sol, as tantas estrelas, a lua, a imensidão do infinito… O mar, os rios, os lagos e lagoas… as lagoas que a chuva deixou nas calçadas e nas ruas… A chuva que cai, que deveria cair, que nunca caiu… A lágrima que cai, que deveria cair, que nunca caiu… As palavras negadas, caladas, gritadas, vomitadas…

Tudo na vida tem o poder de ser escrito. E todo escrito tem a opção de ser entregue para leitura. Ou não. Reserva-se, esconde-se, engaveta-se, com a única intenção de preservar o que já foi exposto quando escrito. Mas o que fica guardado fica também imune aos julgamentos e aos elogios. Alguns preferem assim.

Eu, jogo ao mar meus escritos. Atiro neste longo mar de comunicação que é a internet. Ou registro intimamente em livro. Em todos os casos, ordem ou caos, pouco permanece em mim. Graças a isto, continuo viva!

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