Contos e crônicas

ENCONTRO CASUAL

Primeiro foram os gestos, simples, quase banais. Depois foram os olhares, meio leves, meio longos, meio transcendentais. Até que depois vieram as palavras, estas, profundas e especiais. Ouviu tudo, retribuiu o olhar, até ali eram só duas pessoas marginais. Mas depois vieram abraços, beijos, coisas fortes e passionais. E os dois se viram fundidos, primitivos em desejos colossais. A sede e a fome eram tantas e a emoção uma agonia, coisas abissais. Desceram ao fundo do poço, os corpos agarrados nos medos primordiais. Depois foram voltando, pouco a pouco se soltando, como em vendavais. Tocam parte por parte, descobriam-se alegrias, como em grandes carnavais. Souberam tudo um do outro, as coisas mais obscuras, os pontos cardeais. Um sorriso, outro sorriso, lado a lado sem palavras, eram animais. O sono foi consequência, noite e respiração caladas, silêncios infernais. Até que a manhã brilhou e quando ela abriu os olhos, ele não estava mais. Sentiu o vazio no peito, ao ver do lado direito, o papel e as palavras brutais. De paixão avassaladora para prostituta de uma noite, lhe faltava a roupa e o cais. Saiu do hotel perdida, a lágrima escorrendo, lavando os olhos fatais. Amanhã será outro dia, mais fácil, menos feridas, pensou e partiu em paz.

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