Contos e crônicas

EDITORAS: LOBOS OU CORDEIROS, O QUE ELAS QUEREM DE NÓS?

Crônica de 2015 (Atualizada em 2016)

Todos os dias recebo inúmeros e-mails de editoras propondo a edição de livros. Querem que eu edite a qualquer preço. Literalmente. Algumas chegam como spam, outras por intermédio de conhecidos, outras ainda são dirigidas diretamente a mim. Mas todas têm um ponto comum: querem editar meus livros, dizem elas, por preços imbatíveis e métodos maravilhosos! Oferecem, como diziam os antigos, “o mundo e o fundo”. Uma verdadeira terra das maravilhas para um escritor, como é meu caso.
Pois bem, outro dia resolvi dar uma “geral” nas ditas mensagens com mais cuidado e saí verificando as tais editoras e o que realmente elas oferecem.
A grande maioria tem mesmo preços interessantes e propostas que, se não lermos as letras miudinhas e as entrelinhas, até chamam a atenção, pois parecem bem interessantes. Mas, ao ler tudo com paciência, vê-se logo que o preço é o que eles divulgam porque esta maioria de editoras só oferece a impressão em si. Poderiam ser chamadas unicamente de gráficas com selo editorial e não de editoras como se intitulam. Não há revisão de texto, não há acompanhamento editorial, não há leitura crítica; não há, em resumo, nenhum tipo de serviço de edição, ou que seja realmente útil para o escritor.
Também, nesta maioria, incluem-se as editoras que se apropriam dos direitos autorais doautor e fazem com que o ele, após a edição do mesmo, tenha que comprar deles o livro editado, não podendo sequer trocar de editora antes de dois, três, ou mesmo mais anos. Contratos absurdos prendem o “freguês” para que ele edite (imprima) mais livros com eles e, desta forma, mantenha o fluxo de entrada de dinheiro. Todo interesse é mesmo financeiro e o disfarce cai na primeira investigação mais profunda.
Ao meu ver, editoras reais precisam ser mais do que simples gráficas com selo editorial. Necessitam de um sistema de edição completo, onde seja realizada uma diagramação competente do miolo do livro. A capa, essencial para todo livro, deveria passar por um grafista, capaz de confeccioná-la a partir de fotos, ilustrações, desenhos ou pinturas, que tenham seus direitos adquiridos e a edição primorosa.
Verdadeiras editoras, precisam, e isto é essencial, de um revisor qualificado. Mesmo que o autor tenha lido seu próprio livro dúzias de vezes; mesmo que amigos e/ou familiares tenham lido o original e opinado. A leitura por um revisor é necessária, fundamental. Um revisor poderá, com sua visão de fora e esclarecida, com seus conhecimentos da Língua, dar ao autor opções para que ele reveja o livro em partes ou em sua totalidade, corrigindo não somente erros gramaticais e de ortografia, mas também revendo o próprio conteúdo para que ele seja melhor aproveitado.
A leitura crítica é opcional, mas, na minha opinião, também importante, porque vai além da leitura de um revisor. É, como diz a expressão, uma crítica. E críticas construtivas só podem ajudar o autor a evoluir e, automaticamente, a melhorar seu livro. Todo autor tem que ter autocrítica suficiente para compreender que as vezes um livro deve ser reescrito várias vezes antes de ser realmente editado.
O acompanhamento editorial é algo que deveria ser de praxe. O autor que tem a segurança de, passo a passo da edição de seu livro, ter a mão do editor ao alcance, poderá, com segurança, ver seu livro editado da melhor forma. Da escolha da capa ideal à impressão, uma visão profissional faz toda a diferença.
Bem, mas como eu disse no início deste texto, a grande maioria das que se nomeiam editoras, mal propõem a impressão do livro. Chamam de edição, mas na verdade o que fazem é somente imprimir o livro. Sem nenhum critério, seja ele qual for.
De todas as que verifiquei, algumas poucas editoras têm revisor, menos ainda têm acompanhamento editorial. Raríssimas oferecem, a pedido, uma leitura crítica. E ainda quando oferecem somente a impressão do livro disfarçada sob o nome de “edição”, a mesma nem sempre tem garantias de sair a contento. Vi muitas que não dizem sequer o tipo de papel em que irão imprimir. Outras que já dizem nas entrelinhas (com aquelas letras a ler com lupa) que “não incluem” os serviços que seriam mais óbvios.
Depois de tudo isto, vem também o problema da distribuição do livro, sistema inexistente em quase cem por cento das gráficas que se dizem editoras ou das pequenas editoras reais, ou dos selos editoriais. Todas elas andam caçando clientes à laço, fazendo promessas que serão incapazes de cumprir (e sabem disto). Pegam o original, não revisam, não assessoram, imprimem e ainda não divulgam e nem distribuem. Para o autor sobram duas únicas opções: ou ele “compra” seus próprios livros em pequenas quantidades e sai vendendo do jeito que lhe for possível, ou ele paga a totalidade, pega tudo e, da mesma maneira, fica sem saber como fazer para divulgar, distribuir, vender.
O número de editoras autointituladas se prolifera de uma maneira incrível. Cada vez mais há, do dia para a noite, gente que de repente se torna “editor”. Claro, o mercado está vendo como tem crescido o número de escritores e percebe aí um “filão” lucrativo a ser aproveitado com urgência. Todos têm uma história a ser contada e as editoras estão aí para “ajudar” a contar. Seja através de livros individuais ou da criação de antologias as mais variadas e sem criatividade e profissionalismo algum.
Editores (só que não!) que querem apenas o dinheiro do escritor e não se importam com suas expectativas e com seu desejo de realização pessoal. Não tem o menor escrúpulo de pegar o dinheiro, imprimir o livro como ele vier do autor e pronto. Que o autor se vire depois com o resultado, porque ele já terá assinado o contrato recheado de letras miúdas.
Pequenos autores (e neles me incluo) não têm acesso às grandes editoras que, além de oferecer o serviço editorial completo, também divulgam e distribuem em livrarias os seus “eleitos”. E nem que fosse por simples consideração, todos mereciam de todas as editoras, um tratamento mais decente e menos ordinário. Cada autor merece ser tratado com respeito e seu trabalho deve ser valorizado.
Há muito talento sendo desperdiçado por falta de uma boa leitura crítica, de uma boa revisão, de uma impressão de qualidade ou de uma boa divulgação e distribuição. Detalhes, diriam alguns. Essência, digo eu. Muitos talentos que se perdem no mar de livros que as editoras/gráficas, vão imprimindo e soltando no mercado como se fossem nada. E assim caminhamos para mais uns livros que ficarão em caixas, gavetas e armários…
Penso, sinceramente, depois de passar um tempo analisando com mais atenção o que o mercado editoria atual propõe, que o escritor deverá sempre ser o seu maior defensor. Será ele que deverá fazer pesquisa de mercado, verificar com muito cuidado as ofertas e propostas e tentar, ao máximo, fugir dos que podemos chamar de editores ludibriadores, aqueles que não tem a menor cerimônia em enganar, extorquir e ainda tomar direitos autorais. Somente assim, sendo zeloso e priorizando a si mesmo, o escritor poderá se ver livre de um sistema editorial vicioso, e trapaceiro, E, livre, poder ter a alegria de editar um livro que o deixe orgulhoso e feliz.

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