Contos e crônicas

IMPOTÊNCIA

Há algo indescritível na sensação de impotência que pode cair sobre nós diante de uma situação. De repente o todo-poderosismo que nos move se dissipa em um sentimento sem nome. Abatimento. Temos o costume de caminhar pela vida vestidos de eternidade. Somos reis que arrastam o peso das roupas e da cauda aveludada e perene; coroa de certezas sobre a cabeça. Até que a impotência vem e, como um raio, derruba tudo, dissolve tudo, faz de nós seres mortais e à mercê de tudo e qualquer coisa. Somos fortes até prova em contrário. Somos invencíveis até o poder nos ser arrancado das mãos. Há possibilidades até não existirem mais. E o que nos arranca a casca, bota a ferida à mostra até sangrar? O que nos desarma e nos deixa estarrecidos diante da parede invulnerável do viver? A impotência! O fato de sermos impotentes diante do óbvio. Quando a força nos abandona, quando não temos mais para onde ir… quando as opções se reduzem até não existirem mais. A impotência que se nutre do medo, que enfraquece os passos e reduz o ser à sua essência. Peso. Pesado. Muito pesado. A impotência deixa o ar pesado. A garganta que se esforça para deixar passar o ar respirado pelas narinas secas. O sangue que circula cauteloso, quase gelado. Os gestos que são premeditados, pensados, avaliados. E o silêncio. Um enorme silêncio tombando solene sobre tudo. É um estado de impotabilidade tamanho que a gente chega a sufocar. E para ainda ser mais drástica, a impotência sempre vem acompanhada da espera. A espera que supõe resignação, paciência, sabedoria, esperança. Quando nenhuma destas últimas consegue sequer abrandar o sentimento de estar impotente frente ao que nos amarga a vida. Pode ser que passe. Pode ser que não. Se passar, as mazelas também passarão. Se não passar, seremos cúmplices até o fim.

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