Contos e crônicas

ACORDES

Viver sem tempo é a definição mesmo do não-viver. Tudo está marcado, designado, solucionado, determinado. O destino é praticamente a linha tênue entre o querer e o poder. Saber, desconhecer, pertencer, libertar… A liberdade é a fase primeira do destino, ela que nos ilude e como fantoches nos leva à ação primeira em direção do que já é esperado. Livre arbítrio. Visão conturbada. Quanto mais livres somos, mais embriagados pela liberdade ficamos, mais decisões tomamos indo em direção ao destino que nos aguarda como um velho senhor, sentado, olhos fechados, com a certeza que não iremos falhar. Não poderemos falhar. Só quem falha é quem tenta. E os que caminham em linha reta nada tentam. Ilusão… Toda ilusão tem nela nossa culpa. Fingimos não ver. Pretendemos não ser. Preferimos assim, de qualquer jeito, os olhos vendados pelo que é belo e os ouvidos sob a sinfonia de pássaros inexistentes no caos urbano. Mas que importa de quem seja a culpa, a vontade, a intenção? O que importa e só o que importa é que há um fim. Sim? Sim, há um fim. Esta história não é indeterminada. Sua história, a minha também, nossa história acabará. Os personagens mudarão de cena e ficaremos para trás, lembranças óbvias demais para corações aliviados da dor. E o fim é o destino apenas começando seus desígnios que, se para nós são fatais, para os outros são vitais. Não há para sempre. Nem nunca. O destino tem propriedade sobre estas expressões humanas. E ele não as venera, não as pratica, não as difunde. Não atende preces desesperadas e gritos de agonia. Palavras ecoam…. O destino despreza as palavras e os ecos. Sua rotina é banalizar o inesperado… Para sempre, nunca… Expressões apenas… Para sempre é a percepção primeira da esperança. Nunca é uma confusão mental do real com o sonhado; nunca é a morte do destino. E destino não morre. Somos nós que vivemos à esmo, esperando coisas que não podem ser esperadas e deixando o tempo ir morrendo à míngua sem dele sorver a essência. Vivemos contra o tempo, empedernidos em contrafações de vida a aguardar a eternidade. Até o dia em que o fim marca à ferro a vida dos que não irão para o paraíso no mesmo instante que nós. E então conhecemos, finalmente, o destino.

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