Contos e crônicas

UM HOMEM PODE SONHAR E NÃO CONTAR CARNEIRINHOS

Ontem foi deitar cedo. Apagou a lua, estrela por estrela e foi se deitar. Queria dormir sob a escuridão da noite, sem nenhuma luz que lembrasse o dia… Cobriu-se, abraçou-se ao travesseiro amigo e então pôs-se a sonhar, olhos fechados e coração aberto, imaginando tudo o que poderia lhe fazer feliz!

Enquanto sonhava sem dormir, outros pensamentos cruzavam o caminho de seu imaginário. Pensamentos dos quais ele fugia, que o haviam levado até a cama para tentar o merecido e tão desejado descanso.

Contou carneirinhos. Pintou-os de todas as cores. Trocou os carneirinhos por cachorros, mais amigáveis. Contou, contou. Cansou de contar e voltou a pensar sem nem perceber…

Quando percebeu, seus olhos estavam bem abertos, seus pés quase fora da cama. Resolveu levantar. Mas desistiu. Deitou.

Sem que esperasse, começou a ouvir vozes. Eram duas vozes diferentes, conversando entre elas. Falavam, falavam… falavam dele! Esticou o ouvido, os olhos fechados.

– Gostaria que ele viesse conosco, já é hora.

– Não… ainda não.

– Quanto mais tarde, pior.

– Cedo também não é bom, é preciso o tempo certo. Exato mesmo.

Tempo certo, tempo exato: veio na mente a imagem de uma maçã, na árvore, já vermelha, balançando, balançando… Depois caindo lentamente na terra que abrigou sua queda sem magoá-la. A maçã caiu porque estava madura. Era seu tempo. Deixara a árvore para servir de alimento à terra que agora abrigava seu perfume.

Viu passar um homem de terno preto. Estava apressado. Resolveu deixar a fruta e seguir o desconhecido. Caminhava atrás dele sem fazer barulho. O homem olhava apenas para frente, como se soubesse, determinado, calculadamente onde deveria ir. Adiante viu que estrada acabava. No fim dela, um abismo repentino. Começou a correr, braços esticados, tentando alcançar o homem, evitando que caísse. Ao se aproximar, viu que ele olhava para trás e o viu. Sorriu. Sorriu, voltou-se para frente e atirou-se no abismo! Petrificado ele olhava o vulto preto que caía, caía, caía… Devia ser o seu tempo também. O certo, o exato tempo.

Quando se deu conta ao lado dele estava um dos cachorros coloridos que ele havia contado ao invés dos carneirinhos. O animal abanava a cauda convidando-o para segui-lo. Ainda atônito pela cena que acabara de presenciar, seguiu. A estrada não era a mesma. O céu estava escuro, mas tinha uma ou outra estrela. Havia postes dos dois lados do caminho. Toda a extensão da estrada era quieta de gentes e bichos. Com exceção dele e de seu novo companheiro. Logo iria amanhecer. Viu uma cadeira, sentiu vontade de descansar um pouco. Foi qunado avistou ao longe uma casa. Estava iluminada, dava para ver pelas janelas. De repente sentiu que chegava em casa. Alegrou-se, apressou o passo, chamando o amigo para com ele alcançar o abrigo.

– Você tinha razão, é hora.

– Sim, é hora.

– Vamos esperar?

– Vamos. Ele está chegando.

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