Poemas

AS ÁGUAS COMO AS PALAVRAS, CORREM…

Ponho os pés na água. Levemente.
Molho aos poucos a pele que traz a sensibilidade do inverno.
A água está fria. Meus pés estavam quentes.
Agora estão ambos mornos.
Como eu , eu inteira estou morna.
Perdi o calor agoniado da juventude sem freios…
Perdi também a capacidade de compreensão para certas coisas…
Perdi o vigor do corpo, a exuberância das formas
que hoje são outras…
Ganhei com os anos o ardor que acompanha a maturidade
diferente, certo, mas bem mais equilibrado e constante.
Ganhei também o direito de usar a memória como bem entendo
e de lembrar e esquecer o que me convém.
Ganhei além de tudo o entendimento sagrado da unidade da qual sou feita.
Desço as mãos até as águas que de tão mansas estão paradas.
A tepidez da água me comove…
Há quanto tempo já não sou mansa… e na verdade nunca estagnei…
Lembro que dali a pouco quando eu abrir o caminho
a água correrá daqui e irá encontrar-se com outras águas…
Portanto sua estagnação é quase uma enganação…
Somos mutáveis ela e eu. Nos fundimos quando necessário…
Olho a água com o carinho que sempre olho e olhei este líquido precioso:
eu o bebo, eu me banho, eu amo o seu toque de sal ou de nada.
Quando estou perto da água sou bem mais próxima do original
de mim mesma.
Da figura original de mim que existiu no passado e que ainda existe hoje e que mora dentro do corpo que habito e zelo.
Pouco depois, a água já está fria. Eu também.
Cansei de reflexões, cansei de pensamentos cheios de prudência e pudor.
Retiro os pés da água, liberto-a e libero-me de seu poder.
Agora vou usar as palavras para prende-la em mim.
Fazer dela parte de mim. Palavras servem para isto também.
Servem para aprisionar sentimentos tanto quanto para livrá-los do mal de existir mais na mente que na alma.
Depois, quando as palavras estiverem escritas, elas, como a água, também correrão de olhos em olhos. Acabarão por submergir em corações alheios e em outros poderão até florir.
Então está tudo certo. Os pés e as mãos estão secos.
O coração está úmido.
A água já partiu.
E eu escrevi.

 

 

Imagem by Pink Sherbet Photography

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