Poemas

DIGAM AOS MEUS FILHOS

Digam aos meus filhos que já não me olhem hoje.

Digam a eles que olhem o céu, a terra, o que entre lá se passa.

Digam que não me olhem agora. Não agora.

Pois eu envelheci.

Digam aos meus filhos que baixem a guarda dos orgulhos

Digam a eles que parem um pouco de pensar no futuro.

Digam também que carreguem no peito e nos bolsos

Mais do que em computadores e telefones, as fotografias

que o tempo teima em apagar: as que são nossos momentos

que são suas infâncias, adolescências, meninices de todas as idades!

Digam aos meus filhos que parem de olhar para frente

que esqueçam um pouco o que desejam ser e apenas sejam…

agora, no presente.

Digam que o tempo não os esperará…

Os netos, os bisnetos, os que virão e os que não virão mais, todos serão ungidos pelo tempo e não permanecerão…

Mas poderão, todos eles, digam!, contar a história… nossa história…!

Digam aos meus filhos, por favor, digam aos meus filhos…

Que a juventude que havia em mim hoje ainda aflora, mas já não a olhos vistos… ela está escondida em meu coração…

Ela está penhorada pelo corpo que reclama de dor e pela alma que tem seus outros anseios…

Digam aos meus filhos que tudo o que eu teria para dizer a eles, provavelmente não direi.

Não porque não quis, não porque o tempo é curto, não porque a vida se esgota…

Mas porque os momentos nem sempre são propícios, os benefícios nem sempre são bem-vindos…

Digam aos meus filhos que eu fui também sacrifício. Mas antes de sê-lo, fui amor.

Digam que sonhei, sonhei tanto que quase alcei voo atrás desses sonhos.

Digam a eles que por eles, pousei.

Digam aos meus filhos, o que agora estou aqui a dizer a cada um de vocês

e que assim, desesperada, ansiosa, deitada na agonia e erguida na poesia eu falo:

Digam aos meus filhos porque eu sei que não poderei dizer…

Eu envelheci.

Eu envelheci, abracei-me com os anos e já quase morri.

Mas por eles ainda estou viva.

Por eles ainda viverei.

Mas digam, digam aos meus filhos que envelheci.

E da velhice os observarei…

Amarei…

Tudo que for possível eu farei.

Mas que eles saibam que o possível já é menor que a eternidade não me pertence mais.

E que apenas o amor dos meus olhos e a bênção das minhas mãos os seguirá ainda antes das palavras que não poderei dizer…

 

Imgem by stux

 

 

Digam aos meus filhos

Com tradução para o alemão da escritora Neusa Arnold-Cortez

Digam aos meus filhos que já não me olhem hoje/ Sag meinen Kindern, dass sie heute nicht mich anschauen sollen.
Digam a eles que olhem o céu, a terra, o que entre lá se passa/Sag ihnen, dass sie den Himmel, die Erde, was dort geschiet anschauen sollen.
Digam que não me olhem agora. Não agora. Sag ihnen, dass sie  mich jetzt nicht anschauen sollen
Pois eu envelheci./ Denn,  ich bin alt geworden
Digam aos meus filhos que baixem a guarda dos orgulhos./ Sag meinen Kindern, dass sie die Mauer von dem Stolz stürzen sollen.
Digam a eles que parem um pouco de pensar no futuro./Sag ihnen, dass sie für eine kurze Zeit nicht  an die Zukfunt denken sollen.
Digam também que carreguem no peito e nos bolsos./ Sag ihnen, dass sie im Herzen und Taschen
Mais do que em computadores e telefones, as fotografias./ Mehr als Computer und Handys, die Fotos
que o tempo teima em apagar:/die, die Zeit drengt zu löschen
as que são nossos momentos, que são suas infâncias, adolescências, meninices de todas as idades! Sie sind unsere Momente, sie sind ihre  Kindheit,  Pubertät und die Leichtigkeit von allen Altern!
Digam aos meus filhos que parem de olhar para frente/Sag meinen Kindern, dass sie nicht mehr  gerade aus schauen sollen
que esqueçam um pouco o que desejam ser e apenas sejam… /dass sie für eine Augenblick vergessen sollen, was werden möchten und nur sein sollen was sie jetzt sind.
agora, no presente./Jetzt, in der Gegenwart
Digam que o tempo não os esperará…/Sag, dass die Zeit nicht auf sie warten wird
Os netos, os bisnetos, os que virão e os que não virão mais, todos serão ungidos / Die Enkel, die Urenkel, die kommen werden und die nicht mehr kommen, werden alle werden gesegnet

pelo tempo e não permanecerão…Von der Zeit und keine bleiben wird
Mas poderão, todos eles, digam!, contar a história… nossa história…! Aber doch alle könnten die Geschichte,  unsere Geschichte  erzählen.
Digam aos meus filhos, por favor, digam aos meus filhos… Sag meinen Kindern, Bitte, sag meinen Kindern
Que a juventude que havia em mim hoje ainda aflora, mas já não a olhos vistos…/dass die Jugend in mir noch heute entsteht, aber nicht mehr sichtbar ist

ela está escondida em meu coração…/sondern versteckt in meinem Herzen
Ela está penhorada pelo corpo que reclama de dor e pela alma que tem seus outros anseios…/Sie wird durch den Körper befestigt, der vor Schmerzen klagt und die Seele, die andere Wünsche hat.

Digam aos meus filhos que tudo o que eu teria para dizer a eles, provavelmente não direi./ Sag meinen Kinder, dass alles, was ich sagen würde, wahrscheinlich  nicht sagen werde
Não porque não quis, não porque o tempo é curto, não porque a vida se esgota…/ Nicht weil ich nicht wollte, nicht weil die Zeit zu wenig ist, nicht weil das Leben abläuft
Mas porque os momentos nem sempre são propícios, os benefícios nem sempre são bem-vindos…/ weil die Momente nicht immer günstig sind, die Vorteile sind nicht immer willkommen…/

Digam aos meus filhos que eu fui também sacrifício. Mas antes de sê-lo, fui amor./ Sag meinen Kindern, dass ich auch ein Opfer war. Aber vorher, war ich Liebe.
Digam que sonhei, sonhei tanto que quase alcei voo atrás desses sonhos./ Sag ihnen, dass ich geträumt habe, soviel, dass ich fast durch die Träumen fliegen konnte
Digam a eles que por eles, pousei./ Sag ihnen, dass ich für sie gelandet bin
Digam aos meus filhos, o que agora estou aqui a dizer a cada um de vocês/Sag ihnen, was ich jezt hier  für jeden von Euch sage
e que assim, desesperada, ansiosa, deitada na agonia e erguida na poesia eu falo:/und so verzweifelt, aufgeregt, ängstlich und in der Dichtung erhöht, sage ich:

Digam aos meus filhos porque eu sei que não poderei dizer…
Eu envelheci. Sag meinen Kindern, weil ich es weiß, dass ich nicht sagen werde…
Eu envelheci, abracei-me com os anos e já quase morri. Ich bin alt geworden, die Jahre habe ich ungearmt und  ich bin fast gestorben.
Mas por eles ainda estou viva. Aber für sie, lebe ich noch.
Por eles ainda viverei. Für sie werde ich noch leben.
Mas digam, digam aos meus filhos que envelheci. Aber sag, sag meinen Kindern, dass ich alt geworden bin
E da velhice os observarei… und von dem Alter werde ich sie beobachten
Amarei… werde ich lieben
Tudo que for possível eu farei. Alles, was möglicht ist, werde ich machen
Mas que eles saibam que o possível já é menor que a eternidade que não me pertence mais. Aber  sie müssen wissen, dass was möglich ist, ist bereits weniger als die Ewigkeit, die mir nicht mehr gehört.

E que apenas o amor dos meus olhos e a bênção das minhas mãos os seguirá ainda antes das palavras que não poderei dizer…/ Und, dass nur die Liebe meines Augen und der Segen meinen Händen werden sie verfolgen, noch vor den Wörtern, die ich nicht sagen werde.

Por Jacqueline Aisenman.

 

Você pode gostar também de

Sem comentários

deixe uma resposta