Contos e crônicas

SOBRE SAUDADE, SEUS MEANDROS E SEUS FINS

Já se falou muito de saudade, eu mesma já escrevi muitos textos sobre o assunto. Mas, pode se dizer sem erro, este é um tema que não se esgota. Principalmente para nós que somos aquelas pessoas que deixaram toda uma vida para trás para recomeçar, em outro país, uma nova fase nesta mesma vida.

Tem dias que se acorda com um aperto no peito e outros em que sentimos uma aura leve em volta de nós. O aperto no peito ou aura breve, são facetas da saudade que pode se mostrar forte e doída tanto quanto leve e cheia de sabor.

Saudade pode significar relembranças: momentos onde a recordação fica tão presente que quase constrói um caminho para o passado! Pega-nos no colo e leva-nos ao encontro das pessoas distantes e mesmo daquelas que já partiram para outro plano. Devolve-nos ao nosso berço natal, às músicas que marcaram, aos sabores que não conseguimos deixar de sentir. São fatos da infância, da juventude, da vida adulta. Fatos que moram dentro da gente e de vez em quando se tornam mais vivos do que nunca através da saudade.

Mas há vezes em que a saudade é quase solidão. Talvez justamente porque ao relembrarmos muitas coisas, percebamos com tristeza que tudo mora já no passado e que, obviamente, o passado não volta. São os momentos em que pensamos no “quanto era bom”, no “quanto éramos felizes”, no “quanto a pessoa era importante para nós”. Nestes instantes somos invadidos pela dor mais forte, pelas lágrimas e até algumas vezes pelo desespero.

A dor da saudade é igual para todos e todos sabem bem como é viver os vários tipos de saudade que nos acometem, principalmente vivendo longe do país de nascimento.

Quando vim morar em Genebra, isto há mais de vinte e cinco anos, não havia internet. Entenda-se então que não havia e-mail, como também não havia nada além da telefonia normal (sem celulares): nada de WhatsApp, de Skype ou de similares. Cartas saiam daqui cheias de saudade pelos correios normais e cruzavam o oceano em busca da família e dos amigos. De lá para cá também chegavam cartas saudosas. Lembro bem que nós aqui em casa gastamos verdadeiras fortunas em telefone (que era caríssimo naquela época) para ter a alegria de falar com a família e com os amigos que tão presentes estavam em nosso coração.

Foi uma época muito dura. Não havia como melhorar da saudade! Ir ao Brasil custava também muito caro e o preço das passagens tão alto muitas vezes era empecilho para que se fosse com frequência ao encontro dos que nos faziam tanta falta.

O tempo foi passando, muitos dos objetos principais de nossa saudade foram partindo e deixando-nos assim com uma saudade ainda maior. Desta vez um sentimento bem mais difícil de viver, porque não se resolveria com uma ida ao Brasil, com a internet ou com o telefone mais barato que vieram depois!

Para os brasileiros que estão aqui há menos tempo, tudo foi mais simples. O que não impede que exista a saudade! Hoje observo estes mesmos brasileiros que vivem aqui em Genebra e vejo com admiração como a maioria deles consegue, de um jeito ou de outro, “abrasileirar” a própria vida para que a saudade se torne ponte e não um muro.

Eu mesma criei o Varal do Brasil e faço diariamente este elo Brasil-Suíça através da literatura: faço a revista cheia de textos em Língua Portuguesa, publico o site e o blog do Varal, preparo e participo do Salão do Livro de Genebra trazendo livros e autores que vêm do Brasil, daqui mesmo e de outros países europeus. Todos unidos através da literatura na nossa língua. Trabalho feliz, em contato com o Brasil que nunca deixei de amar.

Há também restaurantes com a nossa tão peculiar e saborosa culinária; há diversas pessoas que fazem doces e salgados (de festa ou para almoços e jantares) o mais brasileiramente possível; há profissionais brasileiros em quase todas as áreas propondo seus serviços (da manicure, cabeleireira (o) àqueles que ajudam numa mudança ou arrumam o computador). Todos, brasileiros! Há também (que a gente não viveria sem!) os músicos e cantores (as) que nos trazem canções nos mais diversos gêneros: ouve-se jazz, bossa-nova, forró, sertanejo, samba…  Ouve-se o Brasil!

Quando cheguei aqui era tão difícil encontrar tudo isto e a saudade de tudo o que era brasileiro era tanta que, quando íamos ao Brasil, voltávamos com muitas, muitas malas, carregadas de produtos! Trazíamos música, comidas, roupas, as famosas havaianas então, não podiam faltar! Dos bombons aos biscoitos, da paçoquinha às cocadas, da farinha de mandioca à carne seca, tudo a gente trazia porque aqui não encontrava nada. Hoje, que bom!, se encontra de tudo. Até mesmo as havaianas são vendidas nas lojas de tão famosas que ficaram. E os produtos alimentícios brasileiros a gente encontra também em vários locais de venda, de mercearias portuguesas e africanas até lojinhas brasileiras especializadas. E, cereja neste bolo feliz, pela internet se pode comprar tudo também!

Mas… e a saudade diminui? Depende… Diminui um certo tipo da saudade quando se está com amigos, ouvindo músicas, conversando, comendo iguarias brasileiras. Diminui quando se está nas redes sociais conversando e rindo e brincando com os amigos que, de tanto papo bom, deixam de ser virtuais e passam a ser reais. Diminui quando os e-mails chegam e a gente prazerosamente responde.

E aí vem o outro lado, o lado que não diminui. O lado que é apaziguado pelo tempo, mas que não tem como diminuir: a saudade daqueles que já se foram! No meu caso, mãe, pai, irmão, tios e tias, avós, primos, amigos de longa data. Esta parte da saudade não somente não diminui, mas tem tendência a, quando bate, doer alto e forte.

Seria possível passar muito tempo aqui escrevendo sobre isto. Há tanto a dizer sobre saudade! No entanto, apesar de toda ela, a gente segue vivendo. Porque a vida é justamente seguir em frente e viver com todas as emoções que vêm e virão habitar o coração. E, se por momentos a saudade chegar, tentemos pensar nela como um condimento, um tempero que faz a vida ter mais sabor.

Porque a gente sabe, é preciso fazer opções e ter tudo é algo praticamente impossível. Então, aproveite-se de saudade como se fosse mesmo algo que pudesse temperar a existência, nos reaproximando da terra e das pessoas, dos fatos passados e das alegrias perdidas. Assim, nada ficará distante porque a saudade aproxima.

E, vivendo desta forma lado a lado com a saudade, ser feliz por ter tido na vida momentos e pessoas que hoje podem habitar nosso coração através de lembranças felizes e que nos dão, mesmo com lágrimas nos olhos, motivos para sorrir e viver.

Imagem by ChristianHoppe

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